Dançando em meio ao caos

Por: Felipe Sandrin | 24/03/2016 00:00:00

Há tanto por debater e tão pouco nos aprofundamos. A falta de capacidade argumentativa evidencia-se na medida em que tentamos mergulhar em outras pessoas. Quanto mais sabemos, mais tendemos a nos sentir sós. Porém, quando verdadeiramente soubermos, talvez nos desprendamos de querer que outros saibam o que já sabemos e busquemos o que o outro em sua própria sapiência conheça.
Dificuldade extrema, mas, quando tal nível é atingido, podemos dizer que ali nasce uma mente sã. Complico-me até hoje quando me vejo em meio a debates que tratam de assuntos como “o cultivo da bergamota”. Aliás, na iminência de uma palavra prima de “bergamota”, já suspiro entediado. Poucos assuntos me cansam, bem verdade, quase nenhum; porém, gente que sabe pouco sobre um assunto fútil me causa a flacidez do interesse.
Com o tempo, isso dificulta relações: eu, por exemplo, penso duas vezes no tempo que darei a alguém, calculo quanto deixarei de agregar por estar na simples presença de quem não se aprofunda em assunto algum. Esse sou eu e me cabe o direito de simplesmente evitar quem me roube a solidão sem em troca oferecer verdadeira companhia – obrigado, Nietzsche.
Em tempos líquidos, tenho direito a escolher com quem dividirei meus segundos, logo, tenho direito a dividi-lo apenas comigo. Angustiante, mas a angústia nada mais é do que a presença constante das lembranças alegres. Afinal, se sozinhos desfrutamos de um café e a solidão nos açoita, fica fácil presumir que, em outros tempos, já dividimos um café com alguém e que aquele momento nos trouxe imenso prazer.
Nossa vida é uma série de encontros, portanto, desencontros. Se não está pronto para um café sozinho, nunca o tome bem acompanhado, pois isso potencializará a dor que a inevitável solidão um dia lhe causará.
Viver é a solitude com intervalos comerciais para presenças. Muitos esquecem que a presença é acaso e a solidão é presente, e não é de se estranhar que isso ocorra, visto que o mágico de uma presença nos tornar mais plenos é algo que se guarda em nós para sempre durante nossa existência.
Em uma época de caos político, observo o que não pensei que viveria para ver: pessoas conversando sobre um tema primordial que moldou a raça humana. Vejo um amontoado de brasileiros e o assunto é focado na política. Que satisfação, que alegria, chego a não me importar com as besteiras que são ditas em meio à leiguice das massas. Não me importa quão errado estão, pois, no principal, já se acertam: seres humanos discutindo a humanidade. Enquanto isso nada de Big Brother ou novela das nove. 
Sinto que o Brasil congelou no ponto certo, que as pretensões crescem, que todos se tornam cientistas políticos. Sinto que deveria criticar certos aspectos, mas, por vezes, me vejo estático como quem contempla os primeiros passos de um filho, admirando até mesmo a queda. E, pela primeira vez, posso ficar de longe ouvindo, ao invés de contar os segundos para ir embora.
O caos se instala, as tensões se evidenciam. Em meio ao barulho de tantos grupos e manifestações, eu escuto uma bela canção. Diante do ódio, das reivindicações e dos delírios, eu danço. Mas não a dança dos apocalípticos, pois, pela primeira vez, eu escuto sopros de mudança: eu danço, pois percebo que, neste tempo todo, eu não estava sozinho e que milhões não estavam mortos, mas apenas dormiam.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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