Sempre tarde demais – ou quase

Por: Greice Scotton Locatelli | 14/09/2018 06:40:31

Há duas semanas, um incêndio causou um prejuízo inestimável à história do Brasil no Museu Nacional do Rio de Janeiro, a mais antiga edificação desse tipo no país, que abrigava mais de 20 milhões de itens insubstituíveis. As verbas foram sendo cortadas, salas foram sendo fechadas, os cupins consumiram estruturas, o telhado deixou passar água. Um pedacinho de cada vez, até que um dia as chamas consumiram o prédio por completo. O alerta de que a falta de manutenção traria consequências foi dado. Uma, duas, três, 50 vezes. Reportagens, denúncias, mobilização. Mas nada foi feito. Tarde demais. 

Depois do incêndio, milhares de pessoas que sequer sabiam da existência do museu – quanto mais haviam visitado ou feito algo pela valorização de patrimônios desse tipo – passaram a lamentar o ocorrido com furor e bradar por melhorias naqueles que sobraram. Tarde, mas em tempo, apesar da hipocrisia. Aliás, quer hipocrisia maior do que anunciar R$ 10 milhões para reerguer o museu logo após o incêndio que destruiu a estrutura cuja manutenção custava R$ 500 mil ao ano – para a qual não havia dinheiro? 

Quando as primeiras informações sobre o rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, começaram a surgir, vieram acompanhadas de denúncias anteriores que haviam sido feitas e para as quais alguém fez vista grossa. Foi a mais grave tragédia ambiental brasileira e o maior desastre do gênero na história da mineração mundial. Segundo o jornal “Estadão”, os danos que resultaram na tragédia datam de sete anos antes do rompimento. Mas nada foi feito. Tarde demais.

Se contabilizarmos exemplos de “tragédias anunciadas”, a lista será deprimente e lamentavelmente sem fim. E nem precisam ser situações de grande comoção, como o caso do incêndio no museu ou da barragem de Mariana: temos dezenas de assuntos locais que podem estar listados nesse contexto. 

A BR-470, por exemplo, carrega consigo milhares de histórias de dor, sofrimento, luto. Durante anos, o máximo que a mobilização de autoridades, órgãos de imprensa e comunidade conseguiu foi uma meia dúzia de campanhas preventivas, tímidas demais perante a gravidade do problema. Foram necessários muitos acidentes, grande parte deles fatais, para que finalmente se conseguisse a federalização do trecho e, com ela, a vinda de recursos materiais e humanos que pudessem aumentar a segurança na rodovia. Embora tenha finalmente acontecido, foi tarde demais para quem perdeu alguém que amava naquele local.

Outro exemplo é um complexo residencial com mais de 400 apartamentos erguido no bairro Ouro Verde pelo programa Minha Casa Minha Vida em 2011. Na época, a ideia foi digna de aplausos, mas a iniciativa apresentou deficiências técnicas (sem a separação das ligações de água/luz, por exemplo, o abastecimento é cortado até para quem quitou suas contas). Também deixou a desejar, a meu ver, a orientação dos novos moradores, que deixaram suas antigas vidas sem ter, necessariamente, aprendido a conviver com uma realidade totalmente diferente. De maneira alguma quero desmerecer quem vive lá, pelo contrário: escrevo justamente por conhecer muita gente de bem que se mudou para o prédio em busca de uma vida melhor e que hoje vive um pesadelo bem distante da promessa de um “futuro novo” em razão dos índices de criminalidade – desde brigas até furtos/roubos, invasões, tiroteios e homicídios (foram cinco somente em 2018, um deles nesta semana). Tomara que, a exemplo da BR-470, nesse caso a tragédia não precise ser anunciada por completo.

Infelizmente é comum aos seres humanos só aprender a lição depois que algo já ocorreu. Pior do que isso é identificar uma tragédia iminente, tentar fazer algo para que ela não aconteça, sem sucesso, e depois ter que conviver com a tristeza. Tomara que, com o passar do tempo, as pessoas, entidades, instituições e quem tem o poder de mudar um país se deem conta de que prevenir é melhor do que remediar – antes que seja tarde demais.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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