Não é polarização, é apenas o que somos

Por: Felipe Sandrin | 20/09/2018 14:47:56

Há muitas pessoas afirmando que o brasileiro se polarizou, que os extremos criaram um clima de desunião no país. Mas, pelo que vejo, o ódio latente que vem fluindo nos últimos meses não é um produto da polarização e, sim, da simples conduta do nosso povo. Nosso ódio não surge de uma canalização atribuída às escolhas: nosso ódio é apenas parte da grande engrenagem que se movimenta ao ritmo do que a maioria de nós já sentia e apenas queria por para fora.

Se reprovássemos a incitação à violência, não a utilizaríamos para incitar a própria violência. Se respeitássemos opiniões, não nos curvaríamos diante do primeiro ataque recebido. Se de fato achássemos que essa onda intolerante surgiu em uma praia distante, então como poderíamos ser tão afetados por ela? A intolerância está dentro de nós, sempre esteve, porém, nós, como brasileiros, estamos ainda mais suscetíveis a essa declaração de guerra, pois nossa primeira guerra começa na boçalidade do que presenciamos e aceitamos nos últimos anos.

Em 2015, a fundação britânica Charities Aid Foundation avaliou o comportamento da população de 135 países quanto ao assunto filantropia. O primeiro lugar da lista ficou para os Estados Unidos, enquanto os brasileiros ficaram na 90ª posição. Sim, isso mesmo, o povo que se autointitula receptivo, alegre e caridoso, ocupa uma das últimas colocações no ranking. Enquanto isso os estadunidenses, aquela nação que tanto ouvimos falar como sendo exploradora e imperialista, lidera a lista da filantropia.

Durante muitos anos o brasileiro vem se autossabotando quanto às suas qualidades. A síndrome do vira-lata – como alguns gostam de dizer – não é um retrato do Brasil que não se conhece, pelo contrário: esse complexo surge justamente de nossa realidade. Nós nos tornamos um povo rancoroso, intolerante e, principalmente, invejoso.
O que estamos vendo diante dessas eleições não é um efeito imediato, toda essa tonelada de diferenças que convergem ao desprezo são os simples sintomas de uma doença que nos corrói há muito tempo.

A falta de estímulo para com nossas capacidades, a dependência quanto a um estado corrupto, a falta de incentivo para quanto a sermos um povo com coragem – e individualista – nos tornou isso: gigantescas massas de manobra a manifestarem a covardia assim que estabeleçamos um grupo.

Se alguém odeia é feio, mas se você se junta a um grupo que possui um mesmo alvo, logo o ódio se torna justificado e pronto para ser dirigido. Mais uma vez: isso não nasceu hoje nem no ano passado. O que presenciamos hoje no Brasil é o efeito inevitável dos últimos anos. Um povo largado à marginalidade logo se incorpora a esses, em breve não se distingue mais um e outro e todo ato passa a ser justificado não pela lógica, mas, sim, pelo simples meio.
Vivemos hoje o ódio voluntário. Ele deixou de ser combatido para tornar-se solução: a quê? Ninguém sabe. Há muito as linhas do raciocínio do bem comum se perderam. Se pararmos para observar, não é difícil constatar que as pessoas que mais falam em ajudar o próximo são as que mais privam o próximo de receber ajuda.

O brasileiro aprendeu a viver de esmolas. Nossa incapacidade para reconhecer o valor individual nos tornou dentes de uma máquina pronta para moer valores. Deixamos de nos admirar como nação porque desaprendemos a admirar grandes homens. 

Não temos heróis nem representantes. Temos uma bandeira, um hino, mas há muito tempo deixamos de ter o orgulho e algo verdadeiro pelo que lutar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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