É preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições

Por: Greice Scotton Locatelli | 28/09/2018 06:00:53

“Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?”. A canção, composta por Renato Russo há mais de 30 anos, retrata muito bem o Brasil dos tempos de hoje. É dele também, aliás, outra canção que virou um dos poucos “memes” úteis das redes sociais desse período eleitoral: a frase “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” se transformou satiricamente em “é preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições”. As duas são verdade, sem a mínima sombra de dúvida.

Aposto que, como eu, você tem um amigo – ou vários – que defende de forma fanática o candidato A, B ou C. Também aposto que você já teve raiva que algum deles justamente por esse comportamento, com chance de ter havido discussão e até mesmo rompimento da amizade. Sinto muito informar, ainda faltam 10 dias para as eleições e há uma boa chance de a decisão ser adiada para o segundo turno no caso de cargos majoritários como presidente e governador. Ou seja, (mais) paciência será fundamental.

Eleição é o ato mais simbólico – e poderoso – de uma sociedade democrática, mas em tempos de redes sociais que dão voz a todos tem sido difícil não se desanimar. Já era esperada uma onda de notícias falsas e de ataques entre os candidatos, mas o que se vê são pessoas comuns “armadas” com palavras e argumentos de uma forma quase insana. Você fala que a chuva causou estragos e vai alguém e comenta “candidato tal”. Alguém rebate, acusando o “candidato tal” de algo, vem uma terceira pessoa e joga gasolina no fogo. E em poucos minutos uma notícia sobre os estragos da chuva vira um ringue virtual de xingamentos e falta de respeito. Bem-vindo ao período pré-eleitoral.

É como se, de repente, todo mundo ganhasse voz, mas ao mesmo tempo tivesse ficado cego. Não há mais espaço para opiniões diferentes, só para discussões exacerbadas que têm pouco ou nenhum sentido. Extremos que colidem, com um ódio enraizado que assusta. Se a sua opinião é diferente da minha eu odeio você e ponto-final. Devagar, gente. Vamos respirar. Eu posso simpatizar com o candidato A, não gostar das propostas do candidato B, ter uma rejeição enorme pelo candidato C. É a minha opinião, baseada nas minhas vivências. Você tem as suas, eu tenho as minhas. E nenhum de nós está errado, é apenas questão de ponto de vista.

A impressão que se tem é que as pessoas esqueceram que o voto é uma decisão individual e que não há a menor necessidade de isso ser alardeado ao vento – a menos, é claro, que você queira usar a sua escolha para tentar convencer outras pessoas a fazerem o mesmo (e como tem gente fazendo isso. Tire aqueles cuja intenção é manter um cargo e ainda assim sobrará bastante gente). Mas isso não dá o direito de você odiar o outro caso ele tenha uma opinião diferente da sua ou não vote no(s) mesmo(s) candidato(s).

Em tempos de eleição, todo mundo promete colocar o Brasil nos eixos – a propaganda é linda, a teoria mais ainda. Mas, francamente, por maior boa vontade que o candidato tenha, não dá para ser ingênuo e pensar que ele seja capaz de montar uma equipe e arrumar, em quatro ou oito anos, um sistema que começou falido há 518 anos – pesquisas recentes indicam que os primeiros registros de corrupção e enriquecimento ilícito datam do século 16. Quando a idolatria cega entra em jogo, a democracia perde espaço. Quando o debate acerca de política surge, eis a hora em que o respeito deve prevalecer. Isso é tão democrático quanto um processo eleitoral.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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