A nova onda da violência

Por: Felipe Sandrin | 28/09/2018 06:00:02

Há um necessário conforto que as pessoas buscam a cada novo e impressionante número da violência. Basta surgir um novo homicídio em Bento Gonçalves e as pessoas se atentam para os dados que expõem alguma ficha criminal que torne a vítima não tão vítima assim. Esse conforto que visamos a fim de justificar uma morte surge como uma venda aos olhos dos reais motivos aos quais se devem os constantes tombamentos desses indivíduos: uma limpeza está ocorrendo em nossa cidade, uma limpeza promovida não por justiceiros, mas, sim, por uma nova facção que já assume grande parte de nossa realidade.

A causa é sabida, mas para a consequência fechamos os olhos. Se o foco dos “novos bandidos” está hoje na limpeza da área, não tardará para o domínio consolidar os pontos de droga e o lucro exorbitante desse mercado. Logo o dinheiro do tráfico financiará ainda mais armas, corromperá ainda mais setores públicos e, por fim, a população que já vive com medo será esmagada pelo poder organizado dessa nova quadrilha que sem pudor eliminou a até então igualmente perigosa concorrência.

“Mas são bandidos que estão morrendo”. A necessidade desse desesperado consolo traz um brando alívio aos que preferem não procurar a consequência desse mercado de guerra que logo será gerido por um único e poderoso bando. A música tocará um único ritmo e as mortes passarão a não ostentar seguidamente fichas criminais.
Não se pode dizer que esse seja o início do abismo, pois já estamos caindo há muito tempo. O grave dessa situação é que é o último suspiro antes da parede rochosa que lá em baixo nos espera. O crime desorganizado deu lugar a uma breve organização, por fim, agora, presenciaremos o ápice da violência e controle. Bento Gonçalves finalmente recebe o que há de pior em termos de violência coordenada e os frutos podres dessa árvore enraizada não podem ser simplesmente empurrados aos vizinhos. Quando se domina um ponto, não há como se abrir mão dele: o fluxo da marginalidade opera por base de transferência e acobertamento.

Há tempos muitos preveem a desgraça inevitável, mas outros preferem fechar os olhos e usufruir do fantasioso conforto das horas que restam. Não, você não necessariamente levará um tiro em alguma esquina, mas certamente as evitará. A sorte e a vigília passarão a reger seus movimentos. Logo suas escolhas consultarão relógios, logo qualquer escuridão lhe lembrará o risco. Assim, você será cada dia mais escravo da cidade em que vive, das ruas pelas quais anda e das horas que determinam sair ou não de casa.

Se isso é vida? Não sei. Talvez se fecharmos os olhos e adotarmos a consciência de que colhemos o que plantamos então a indignação se dissolva em nossos próprios pecados como cidadãos e sociedade. Não lembraremos – obviamente – das épocas boas em que apenas bandidos se matavam entre si, ficará para trás tal lembrança como se fosse a máscara a nos atormentar com uma verdade: a verdade de que o mal cresce à medida que esse próprio mal elimina tudo que lhe afronte.

Não há limpeza que possa ser feita com panos sujos, nem existem produtos suficientes para anular o cheiro que hoje emana do nosso futuro. As pessoas abraçaram o medo da violência com tanta força que hoje temem até mesmo abrir os olhos para os segredos sombrios que guardam nosso silêncio e desânimo.
Não há perspectiva de melhora, há apenas a certeza de que irá piorar. Porque as esquinas já não são nossas e o medo aos poucos desbota o pouco colorido que ainda existia em nossa cidade.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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