Cresce atendimento a idosos que sofrem violência, negligência e abusos

A reflexão sobre o cuidado com as pessoas mais velhas ganhou mais força nesta semana: na última terça-feira, 15/06, foi lembrado o Dia Mundial da Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa. A ideia é que nesse dia o mundo inteiro manifeste sua oposição a abusos e sofrimentos infligidos às pessoas idosas. A data, porém, também escancara uma realidade que não tem nada para ser comemorado: durante a pandemia, cresceu o número de casos de violência, negligência e abusos contra os mais velhos.

De acordo com números do Disque 100, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, só em 2020, foram registradas mais de 48,5 mil denúncias de violação de direitos dos idosos. Entre março e junho de 2020, logo no início da pandemia, o número de denúncias cresceu cerca de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em Bento, o cenário não é muito diferente. Conforme dados da Secretaria de Esporte e Desenvolvimento Social (SEDES), no período de 2020-2021 foram realizados 119 atendimentos a idosos que se encontram em situação de vulnerabilidade social e/ou com violação de direitos. Destes, 75 vítimas são mulheres, identificando-se a violência psicológica seguida de violência física como principais causas para atendimento. Essas situações são atendidas na Assistência Social por meio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) ou Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).
O atendimento, de acordo com o secretário da Sedes, Eduardo Viríssimo, tem a função de orientar e apoiar as famílias e indivíduos no que diz respeito à prevenção das situações de violências, rompimento de vínculos familiares e comunitários e isolamento social. “O trabalho social desenvolvido pelos serviços visa ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, acesso a direitos sociais e proteção social”, completa.

VIOLÊNCIA EM CASA
De acordo com o defensor público Rafael Carrard, ainda que exista legislação protetiva própria (Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741 de 2003), os idosos não raras vezes são vítimas dos mais variados tipos de violência, por ação ou negligência, como física, psicológica, sexual e econômica. “Esse cenário potencializa-se em uma sociedade em que a juventude vive cada vez mais junto aos pais e avós, diante das dificuldades econômicas que assolam o país. Esse convívio próximo e duradouro acaba por criar, muitas vezes, um ciclo de violência que vitimiza os idosos, os quais como regra tendem ao silêncio, não só pela vergonha ou medo de denunciar, mas também por receio de aumentar a tensão familiar”, explica.
Para Carrard, o silêncio e o senso equivocado de proteção familiar eternizam uma realidade violenta que normalmente não chega às autoridades. “Tal realidade torna-se ainda mais dramática quando filhos e netos envolvem-se com drogas, pois pais e avós idosos, além de sofrerem naturalmente com os dramas familiares, acabam sofrendo não só com ataques físicos e emocionais, mas também com assédios financeiros”, destaca. 


 

GOLPES NA INTERNET
Aliás, a violência financeira contra os idosos é outro problema recorrente no país. Além de casos de furtos, roubos a apropriação indevida realizada pelos familiares, um levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) revela que desde o início da pandemia houve um aumento de 60% em tentativas de golpes financeiros contra idosos. “Há estelionatários que se especializaram em aplicar golpes na parcela mais idosa da sociedade, normalmente mais suscetível e com meios de defesa reduzidos, inclusive por dificuldade de manuseio das novas tecnologias”, alerta o defensor público.
Para ele, cabe aos familiares e amigos ficarem atentos aos movimentos dos idosos. “Mudanças repentinas de comportamento, de humor, posturas depressivas ou excessivamente eufóricas, além de alterações econômicas sem justificativa podem indicar algo de errado. Nesses cenários, o melhor é tentar se averiguar os motivos das alterações no estado de espírito dos idosos ou procurar as autoridades”, recomenda.
Denúncias podem ser feitas por meio do telefone 100 do governo federal, ou o próprio 190, da polícia local. O Disque 100, ou Disque Direitos Humanos, é um canal de denúncias sobre violação dos direitos humanos que redireciona as demandas para os órgãos responsáveis. Funciona 24h por dia. Além disso, instituições como a Defensoria Pública e o Ministério Público também contam com estrutura e prerrogativas legais para combater as diversas formas de violência contra os idosos.


Defensor público, Rafael Carrard.

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