Empresa de Bento Gonçalves aparece na “Lista Suja” do Ministério do Trabalho

A empresa de Bento Gonçalves Mateus da Silva Amaral foi incluída na nova “Lista Suja” do MTE divulgada na última segunda-feira

Empresa de Bento Gonçalves aparece na “Lista Suja” do Ministério do Trabalho.
Indígenas dormiam no chão de uma cancha de bocha. Foto: MTE

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) incluiu uma empresa de Bento Gonçalves na atualização da chamada “Lista Suja”, divulgada em 6 de abril de 2026. O cadastro reúne empregadores responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão.

A empresa

A inclusão decorre de uma fiscalização realizada em fevereiro de 2025. A empresa listada é a Mateus da Silva Amaral Ltda., sediada no bairro Municipal. A firma atua como terceirizada e fornece mão de obra para contratantes que necessitam de trabalhadores temporários.

O serviço envolvia 18 trabalhadores indígenas na colheita da uva. A decisão administrativa do MTE sobre o processo ocorreu em 16 de outubro de 2025. Por fim, a inclusão oficial no cadastro aconteceu agora, em abril de 2026.

Cronologia do caso

  • 7 de janeiro de 2025
    Os trabalhadores contratados pela Mateus da Silva Amaral chegaram a Bento Gonçalves. A promessa incluía início imediato na colheita, carteira assinada e diárias de R$ 150. O acordo também garantia alimentação e moradia.
  • 20 de janeiro de 2025
    A empresa realizou exames médicos admissionais, mas nunca efetivou o registro em carteira. Os pagamentos das diárias começaram apenas nesta data. Por isso, o grupo ficou sem remuneração nas primeiras semanas de trabalho.
  • 5 de fevereiro de 2025
    Dez indígenas buscaram ajuda na Assistência Social de Bento Gonçalves. Eles haviam sido dispensados e despejados do alojamento sem receber os pagamentos devidos. O órgão municipal acionou imediatamente a fiscalização do Trabalho.
  • 6 de fevereiro de 2025
    A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico interditou o alojamento irregular utilizado pela empresa. Na mesma data, auditores-fiscais identificaram outros oito trabalhadores vivendo em condições inadequadas na área urbana da cidade.
  • 7 de fevereiro de 2025
    Auditores-fiscais do Trabalho coordenaram o resgate oficial dos 18 trabalhadores indígenas. A operação teve apoio da Secretaria de Assistência Social, da Guarda Municipal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Detalhes das irregularidades

A maioria dos resgatados pertence à reserva Kaingang, de Benjamin Constant do Sul (RS). O grupo contava com 12 homens e seis mulheres, além de duas crianças. Eles dormiam em colchões no chão de um galpão de madeira com canchas de bocha pertencente a uma associação. O local era improvisado atrás de um bar e não possuía condições básicas de higiene.

A empresa terceirizada recrutou mais pessoas do que o necessário para atender as propriedades. Segundo a fiscalização, a Mateus da Silva Amaral trouxe o grupo precocemente para impedir que buscassem emprego na colheita da maçã. Além disso, o empregador vendia itens básicos, como papel higiênico, por preços superiores aos de mercado dentro do alojamento.

O lado do produtor rural

Um dos agricultores que contratou a terceirizada relatou que a empresa garantiu que todos os trabalhadores estavam devidamente registrados. Para ele, a situação parecia coerente, pois os próprios indígenas confirmaram a realização dos exames admissionais. Além disso, o produtor fornecia café da manhã, almoço e transporte diário para a equipe.

O agricultor afirmou ainda que a empresa o pressionou para admitir os trabalhadores antes do período ideal da safra. Por causa dessa antecipação, ele precisou colher a uva que ainda não estava madura o suficiente, o que resultou em prejuízo financeiro. Ele garantiu que os pagamentos para a Mateus da Silva Amaral Ltda estavam rigorosamente em dia e só soube das irregularidades após a dispensa do grupo.

Providências adotadas

O Ministério do Trabalho classificou a situação como trabalho escravo devido às condições degradantes e falsas promessas. A empresa foi notificada a quitar todos os débitos trabalhistas e custear o retorno dos indígenas. Além disso, o Governo Federal liberou o Seguro-Desemprego Especial aos resgatados, pago em três parcelas de um salário-mínimo.

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