MP afirma que série sobre Boate Kiss desinforma e explora o luto de famílias

Já segundo a Associação dos Familiares Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, a série contribui para que o caso não seja esquecido e que a justiça seja feita

Foto: Acervo Agência BrasilAssociação dos Familiares Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM)

A série do serviço de streaming Netflix “Todo dia a mesma noite”, que conta sobre o caso da Boate Kiss, incêndio que matou 242 pessoas e deixou outras 636 gravemente feridas, tem causado polêmica. Na terça-feira, 31/01, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) emitiu uma nota oficial onde destaca que a série, mesmo sendo um produto ficcional inspirado em fatos, pode confundir os telespectadores, além de levar sofrimento às famílias.

“Ao apresentar tanto personagens quanto o Sistema de Justiça, seus ritos e regramentos de forma caricaturada em muitos momentos, a obra contribui para a desinformação e para a criação de uma memória coletiva contaminada por versões e por fatos que não ocorreram como apresentados”, diz a nota.

Segundo o MP, a obra trata de um tema delicado e sensível para centenas de famílias que perderam entes queridos no incêndio. “A série explora, para o entretenimento, a dor de centenas de famílias, ainda enlutadas, que aguardam, em longa espera, a punição dos culpados”, explica. Ainda para o MP, o fato do caso ainda estar correndo judicialmente pode trazer prejuízos. “E o mais grave, a produção do canal de streaming expõe uma versão para a opinião pública de um caso ainda em tramitação, que poderá ser objeto de novo júri popular, possibilidade que a instituição luta com muito empenho para afastar.”

Ao final, o MP ressalta que a instituição segue no processo para condenar e garantir a prisão dos culpados, lembrando que o júri realizado em dezembro de 2021 foi anulado e os acusados seguem em liberdade.

“Vale lembrar que, desde o início, a instituição vem atuando não só para a condenação, mas para garantir a prisão dos culpados. Além de presos preventivamente por aproximadamente três meses em 2013, foi a partir de recurso do MPRS apresentado ao Supremo Tribunal Federal que os quatro réus voltaram para
prisão em 2022 e lá ficaram por cerca de oito meses, cumprindo pena resultante de suas condenações pelo Tribunal do Júri, até a soltura determinada pela Justiça a partir da anulação do julgamento”, conclui.

O que diz a Associação dos Familiares Vítimas e Sobreviventes

Pelas redes sociais, a Associação dos Familiares Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), via seu presidente, Gabriel Rovadoschi Barros, afirmou que apoia a produção da Netflix. “A AVTSM esclarece que estávamos sim cientes que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro ‘Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss’ de Daniela Arbex, e sente-se representada por ela bem como livro da autora.”

Barros afirma que a associação não está promovendo nenhum processo contra a empresa de entretenimento e acredita na potência da produção na busca por Justiça.

“Acreditamos, acima de tudo, que tragédias como a que vivenciamos precisam ser contadas através de todas as formas. Recontar essa história significa denunciar as inúmeras negligências e tentativas de silenciamento que encontramos pelo caminho, além de auxiliar na prevenção para que esse tipo de tragédia não aconteça com mais nenhuma família, algo que temos como propósito desde o primeiro dia de nossa fundação”, afirma.

A nota ainda destaca que a produção contribui para que o caso não seja esquecido e que as mortes de 242 pessoas, principalmente de jovens estudantes, não tenham sido em vão. “Mostrar o que aconteceu na Kiss faz com que a morte de nossos filhos e filhas, irmãos e irmãs, pais e mães, amigos e amigas não tenha sido em vão. Mostrar a morosidade, a burocracia e como é o sistema judiciário brasileiro serve como denúncia e como protesto.”

Na última sexta-feira, 27 de janeiro, o incêndio na Boate Kiss completou 10 anos. Confira uma jornada cronológica do caso.