Na terra do vinho, transporte para não ser pego na Lei Seca
Há oito anos, dirigir depois de beber uma taça de vinho ou uma cerveja fazia parte da rotina de muitos condutores, sem grandes preocupações. Até 1997, a lei tolerava até seis decigramas de álcool por litro de sangue. Onze anos depois, veio a Lei Seca e qualquer quantidade de bebida alcoólica consumida tornou-se sinônimo de infração gravíssima de trânsito. A tolerância zero à combinação “bebida + direção” bateu de frente com o setor do turismo em Bento Gonçalves, que tem justamente no vinho um de seus principais atrativos. Como uma cidade que detém o título de Capital Brasileira da Uva e do Vinho poderia seguir incentivando o consumo do maior produto local – responsável por atrair milhares de visitantes todos os anos – sem descumprir a lei e atentar contra a vida? Adaptação é a palavra-chave.
Buscando proporcionar uma experiência diferenciada aos clientes, alguns restaurantes passaram a oferecer uma comodidade extra: o transporte. É o caso do Di Paolo Galeto e Grelhados Bento (antigo Canta Maria), que conta com o serviço desde que a lei foi implantada, em 2008. Mais recentemente, há cerca de um ano, quem também aderiu à ideia foi a QPalato. Os empresários Emiliano Castaman (sócio do DiPaolo) e Edi Ressler (chef e proprietário da QPalato) garantem que o investimento vale a pena.
Comodidade e segurança
Na Rede DiPaolo, a preocupação em oferecer diferenciais aos clientes surgiu em 2008, muito antes da Lei Seca e da Balada Segura. A casa oferece transporte para pessoas hospedadas em hotéis da zona urbana de Bento Gonçalves, o que permite que os turistas possam degustar os produtos mais badalados da região – o vinho e o espumante – sem preocupação, com segurança e sem desrespeitar a lei. O sócio, Emiliano Castaman, garante que a comodidade traz retorno – e muito. Tanto que, para o ano que vem, a ideia é expandir a área de atuação, oferecendo o serviço também para quem se hospeda em roteiros fora da zona urbana, como o Vale dos Vinhedos. “A maioria dos turistas não conhece o trânsito da cidade e fica com receio de sair à noite. Com o serviço, os clientes permanecem mais tempo no restaurante, consomem mais e ficam mais à vontade. É um gesto simpático, que faz com que as pessoas tenham uma impressão positiva da cidade e que garante a segurança deles”, detalha. No DiPaolo de Bento, um Fiat Doblò é designado especialmente para o transporte dos clientes. O veículo tem capacidade para 6 lugares e são realizadas entre quatro e cinco viagens por noite, de segunda a quinta-feira. Às sextas e sábados, a demanda é de dez viagens, em média. Não há custo e a solicitação pode ser feita diretamente no hotel. “Muitas vezes acontece de ir buscar um cliente e outros que não haviam agendado se interessarem. Quando mais do que seis pessoas solicitam o transporte ao mesmo tempo, taxistas parceiros auxiliam no transporte, que é pago pelo restaurante. É vantajoso para todos, o conhecido ganha-ganha”, explica. Na Rede Di Paolo, o serviço é oferecido nos restaurantes de Bento Gonçalves (ao lado da Pipa Pórtico), Caxias do Sul (bairro Lourdes), Gramado e Porto Alegre – ao todo o grupo é formado por sete marcas e possui operações também em Garibaldi e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e em Itapema, Santa Catarina.
Para turistas e quem é daqui
Na QPalato Gourmet e Pizza, no bairro Maria Goretti, o serviço de transporte não fica restrito aos turistas. Quem mora em Bento e quiser uma “carona” pode agendar o transporte, sem custos. A ideia surgiu há cerca de um ano. O chef Edi Ressler, proprietário do estabelecimento, conta que o agrado ao cliente rende muitos elogios, sobretudo de turistas vindos de São Paulo. “Eles saem maravilhados com o atendimento e com a atenção que é dada. Acaba sendo um diferencial importante, porque muita gente tem medo de sair à noite ou não conhece a cidade. E essa comodidade é utilizada não só por quem quer ingerir bebida alcoólica, mas também para quem quer sair para jantar com tranquilidade”, comenta. Além da QPalato, ele também comanda outros dois restaurantes – o Videiras, no Vale dos Vinhedos, e a Casa Ângelo, no roteiro Caminhos de Pedra – e uma pizzaria, a La Máfia. “Existem algumas ideias para facilitar o acesso dos turistas aos roteiros que ficam fora da zona urbana, mas infelizmente em Bento ainda não há uma visão coletiva de união necessária para que saiam do papel”, lamenta.
Foto: Greice Scotton