Economia
15/06/2012 10:27:26, escrita por SERRANOSSA

Barreiras argentinas criam dificuldades para Bento

Comércio cresceu, mas empresas da cidade têm preferido buscar mercados internacionais

A indústria de Bento Gonçalves vem enfrentando dificuldades para exportar seus produtos para a Argentina. Vítimas das medidas protecionistas do governo Cristina Kirschner, as empresas vêm tendo seus produtos retidos antes de entrar no país ou até mesmo recusados pelas autoridades argentinas. O problema é mais evidente para as que exportam móveis: os produtos têm ficado por longos períodos na fronteira até terem permissão para ingressar no país. Ainda assim, houve crescimento nas vendas de Bento Gonçalves para o país vizinho. As indústrias, porém, não estão satisfeitas. 

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a Argentina está em sétimo lugar no ranking de países que recebem produtos exportados de Bento Gonçalves. De janeiro a abril de 2012, as exportações para lá alcançaram US$ 1.471.978. O valor é 4,5% maior do que o exportado no mesmo período em 2011, US$ 1.408.544. O aumento, no entanto, está próximo da média de crescimento do total das exportações da indústria moveleira bento-gonçalvense para o mesmo período: segundo o Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), entre janeiro e abril as vendas para o exterior foram 4,1% maiores que no mesmo período no ano passado.

Houve crescimento, mas, na prática, as dificuldades são muito maiores hoje do que no ano passado. Desde fevereiro, a Argentina vem praticando um regime de licenças não automáticas: é necessário obter permissão específica do governo argentino antes que os produtos possam ingressar no país, em um processo que tem levado muito tempo. E essa permissão vale apenas para a carga em questão: a empresa que enviar outro lote ao país terá que enfrentar toda a burocracia novamente, sem a garantia de que obterá o aval para entrar na Argentina. Essas “barreiras” vêm arrastando o comércio com a Argentina para cada vez mais próximo do inviável.

Os principais produtos de exportação bento-gonçalvenses, conforme o ministério, são os móveis. E para essa indústria, a relação com a Argentina vem tornando mandatória a procura de novos mercados. “A Argentina era um importante importador. Ainda representa um destino importante, mas está ficando muito complicado”, diz Cátia. “O caminho para os exportadores é procurar outros destinos para compensar isso”, afirma a presidente do Sindmóveis, Cátia Scarton. O SERRANOSSA também tentou falar sobre o assunto com o secretário municipal de Finanças, Olívio Barcelos de Menezes, sem sucesso.

A situação na fronteira beira o inusitado quando se analisa a balança comercial Bento Gonçalves - Argentina. Os produtos bento-gonçalvenses têm enfrentado dificuldades para serem comercializados no país vizinho, mas os produtos argentinos têm muito mais penetração por aqui. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a Argentina é o principal país de origem de artigos importados pelas empresas do município. De janeiro a abril de 2012, foram US$ 7.147.825, o equivalente a 24,7% do total importado pelo município. Bento Gonçalves exportou para a Argentina US$ 1.471.978 no mesmo período. Pelo menos no caso de Bento, a Argentina vem cumprindo sua meta maior: manter a balança comercial a seu favor e evitar a saída de dinheiro do país.

Exportações caíram 59,6%

As dificuldades na exportação de mercadoria para a Argentina coincidem com o mau momento da indústria moveleira gaúcha. Em Bento Gonçalves os resultados são positivos, mas no âmbito estadual a queda nas exportações, em 2012, foi de 2,5%, conforme a Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs). Somente para a Argentina, oitavo mercado para as exportações gaúchas de móveis, as vendas das empresas do Rio Grande do Sul caíram 59,6% nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período no ano passado. As exportações nacionais para o país vizinho, de janeiro a abril, caíram 19,6%.

Enquanto que de janeiro a abril de 2011 as indústrias de móveis gaúchas exportaram para a Argentina US$ 4.356.101 em produtos, em 2012, no mesmo período, as vendas foram de US$ 1.760,986. Hoje, as vendas para o país vizinho representam 3% do total das exportações de móveis gaúchos.

No âmbito nacional, a queda nas exportações foi de cerca de US$ 9,4 milhões. Nos quatro primeiros meses de 2011, o Brasil exportou para a Argentina US$ 48.120.697 em móveis. Em 2012, no mesmo período, foram US$ 38.680.276. Para a indústria nacional, no entanto, apesar da queda de 19,6%, a Argentina ainda é o principal destino para as vendas internacionais, com 18% do total exportado.

A alternativa para minimizar os efeitos dessa queda vertiginosa vem sendo a busca de novos mercados internacionais e a pressão ao governo federal para a negociação de soluções para o impasse. “A Argentina quer impor barreiras a todo custo. Agora o governo brasileiro está começando a jogar muito forte também. Mas não acredito que esta situação se resolva em curto prazo”, afirma o presidente da Movergs, Ivo Cansan.

Negociações retomadas

No início deste mês, Argentina e Brasil retomaram reuniões regulares da Comissão de Monitoramento de Comércio Bilateral.  Os dois países negociarão a entrada de produtos que, hoje, ficam retidos nas aduanas brasileiras e argentinas à espera de licença para entrar nos países. O Brasil também impôs o licenciamento não automático a produtos argentinos, alguns perecíveis, que ficam muito tempo nas aduanas à espera de permissão para ingressarem no país. A Argentina quer a facilitação do acesso de uvas, uvas passas, camarão, frutas cítricas e medicamentos ao comércio brasileiro. O Brasil quer o mesmo em relação à carne suína exportada para o país vizinho, e já garantiu sua entrada no final de maio, ainda que a conta-gotas. Outros produtos brasileiros ainda enfrentam dificuldades.

“A ideia é ajudar a reduzir o déficit comercial que a Argentina tem com o Brasil. Existem muitos produtos que o Brasil poderia importar da Argentina de forma conveniente”, disse, ainda em maio, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman. “Foi firmado um compromisso de examinarmos com cuidado os pleitos argentinos e a Argentina examinar com cuidado os pleitos brasileiros”, afirmou o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Antônio Patriota.


Balança comercial ainda é favorável ao Brasil

A Argentina vem tomando medidas protecionistas para impedir o escoamento de dinheiro para fora do país, fomentar a indústria nacional e atrair novos investimentos. Outro objetivo é garantir superávit da balança comercial superior a US$ 10 bilhões em 2012. Segundo o governo federal argentino, no primeiro trimestre o superávit foi de US$ 3,06 bilhões.

Como consequência das medidas argentinas, as exportações brasileiras para o país caíram 9,48% nos quatro primeiros meses de 2012, em comparação com o mesmo período de 2011, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A balança comercial entre os dois países, no entanto, continua positiva para o Brasil. E é essa situação que o governo argentino pretende reverter.

A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China e dos EUA. Em 2012, entre janeiro e abril, o Brasil exportou US$ 5,91 bilhões para Argentina e importou US$ 4,93 bilhões. O Brasil, portanto, exportou US$ 968,9 milhões a mais para a Argentina do que o país vizinho enviou para cá. Em 2011, neste mesmo período,a vantagem brasileira foi de US$ 1,32 bilhão e, no somatório do ano inteiro, de US$ 5,8 bilhões.


Argentinos sofrem com medidas

Não são apenas as empresas estrangeiras que vêm enfrentando transtornos por conta das novas regras. Vários setores da economia local também têm sofrido com as medidas. Montadoras de automóveis têm diminuído a produção por não conseguir obter peças importadas em quantidade suficiente. Lojas de vestuário vêm fechando as portas por não terem permitida a importação de produtos. Há falta de fraldas, seringas e outros produtos hospitalares no país.

Para as empresas que trabalham com matéria-prima estrangeira, o governo determinou que criem políticas de substituição de importações. Elas também têm que informar, com 120 dias de antecedência, a necessidade de compra de produtos importados. Esses “cronogramas de demanda” são analisados por um comitê do governo e podem ser rejeitados, obrigando as empresas a encontrar alternativas nacionais.

Para os cidadãos, há ainda restrições para a compra de moeda estrangeira. O argentino que for viajar para o exterior precisa antes informar ao governo federal detalhes sobre a viagem e especificar a quantidade de moeda estrangeira que deseja adquirir. Segundo o governo, a Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) pode, então, determinar outra quantidade se julgar pertinente.


Outros países

As barreiras também vêm desagradando os outros países que fazem fronteira com a Argentina. No Uruguai, o presidente da Comissão de Comércio Exterior da Câmara das Indústrias, Rafael Sanguinetti, classificou as medidas protecionistas como “insólitas e até cômicas” e disse à imprensa uruguaia que a situação é “muito complicada”. No Paraguai, o líder do bloco do país no Parlamento do Mercosul (Parlasul), Alfonso González Núñez, disse que a legislação do Mercosul vem sendo vítima de “constante transgressão”, afirmou que empresas exportadoras paraguaias têm ido à falência e cobrou do presidente Fernando Lugo gestões junto à Argentina, Brasil e Uruguai para dar fim ao impasse. No Chile, o presidente Sebastian Piñera vem sendo cobrado por representantes da indústria a tomar atitudes mais “enérgicas” contra a intransigência argentina.


Vitivinicultura: 
Brasil impõe barreiras ao vinho argentino

Em resposta às medidas protecionistas do governo Cristina Kirschner, o Brasil também vem barrando produtos vizinhos na fronteira ou impondo licenças não automáticas de entrada, aumentando a burocracia. Entre os produtos afetados pela reação brasileira, está o vinho argentino.

Para as vinícolas brasileiras, no entanto, na opinião do diretor executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani, o impasse não traz benefícios nem aumenta as dificuldades. “A princípio, tudo isso não nos afeta. A Argentina não importa quase nada de vinho, eles têm um mercado autossustentável”, afirma Paviani.

Segundo o gerente de Promoção e Marketing do Ibravin, Diego Bertolini, atualmente, cerca de 20% dos vinhos comercializados no Brasil são argentinos. Mesmo assim, as barreiras que o país impôs à bebida argentina não devem alterar a dinâmica do mercado nacional. “As barreiras valerão apenas por 60 dias. Depois, o fluxo volta a ser normal. O impacto dessa medida será muito pequeno para gerar algum aumento de mercado para os vinhos nacionais no mercado interno”, avalia Bertolini.

 
Reportagem: Eduardo Kopp


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