Geral
25/02/2017 07:38:03, escrita por SERRANOSSA

Memórias da primeira Fenavinho

Era um dia nublado, com uma chuva miúda e intermitente caindo desde a madrugada. As más condições climáticas não atrapalharam o brilho daquele 25 de fevereiro de 1967. Não foi apenas a primeira vez que um presidente da República esteve em Bento Gonçalves, tampouco somente a data de abertura da festa responsável por projetar o município para o restante do país: foi um divisor de águas. “Foi a primeira manifestação plena de união e força comunitária, dividindo sua história entre antes e depois. A Festa Nacional do Vinho (Fenavinho) conferiu a todos nós uma identidade: Capital Nacional do Vinho. Nos deu prestígio, nos deu projeção, nos mostrou para o Brasil inteiro e, sobretudo, para nós mesmos”, esclarece historiadora Assunta De Paris.

Para os mais jovens, que não viveram aquela época, ou para aqueles que anos depois elegeram Bento Gonçalves como lar, tamanha exaltação pode até parecer exagero. Mas quem vivenciou aquele momento garante que não. “Bento Gonçalves era cercada por pó por todos os lados, não tinha asfalto. No verão não tinha água porque a Corsan não dava conta. A energia elétrica também era deficiente. Na própria Isabela só se podia trabalhar de noite porque de dia não tinha energia elétrica”, resume o empresário Moysés Luiz Michelon, presidente da primeira edição.

O grupo que idealizou o evento foi bastante ousado. A persistência e o envolvimento da comunidade colheram bons frutos. A cidade, então com menos de 50 mil habitantes, ficou lotada. A estimativa é que cerca de 120 mil visitantes tenham passado pelo parque nos três finais de semana da festa - aos domingos eram cerca de 20 mil pessoas, o que chegava a formar filas de veículos na entrada. “Era apenas um pavilhão e o restante tomado por ônibus e carros”, lembra, salientando que o acesso se dava por estrada não pavimentada.

Aos domingos o público chegava a 20 mil visistantes

História

Em 1965, quando a proposta de realizar um festival do vinho surgiu como uma das alternativas para marcar os festejos das Bodas de Prata (25 anos) do Colégio Marista Aparecida, ninguém imaginava tamanha dimensão. Michelon, que fazia parte da associação dos ex-alunos, envolvida nos preparativos, conta que a ideia foi dada pelo engenheiro agrônomo Loreno Augusto Gracia. À medida que os encontros avançavam, a proposta ganhava mais vulto. O que era para ser uma promoção local ganhou dimensão estadual e, por fim, nacional.

Naquele ano Bento Gonçalves completava 75 anos de emancipação - Bodas de Diamante - e Gracia e o diretor da escola, irmão Avelino Madalozzo, levaram ao prefeito Milton Rosa a ideia de integrar as duas comemorações. A proposta foi aceita e Gracia tornou-se presidente da comissão responsável pela organização e da entidade civil então criada. Entretanto, em agosto de 1965, por questões profissionais, precisou viajar para os Estados Unidos e afastou-se da presidência. A festa foi então adiada para 1967, e durante as comemorações do aniversário do município foi lançada a pedra fundamental do pavilhão.

Inicialmente ele seria erguido na avenida Presidente Costa e Silva, no bairro Planalto. Técnicos desaconselharam a construção no local, já que suas dimensões dificultariam expansão no futuro – inicialmente o projeto previa a possibilidade de ampliação com mais dois pavilhões. Com isso, o prefeito em exercício, Ervalino Plácido Bozzetto – Milton Rosa foi afastado por problemas de saúde -, após tratativas com a diretoria executiva, deu seu aval pessoal e a prefeitura adquiriu dos Irmãos Grando a atual área de terra onde está o Parque de Eventos. Com o afastamento de Gracia, a organização da festa andava a passos lentos e algo precisava ser feito para não correr o risco de um segundo adiamento. Foi do padre Ernesto Mânica a ideia de convidar Michelon para ser o novo presidente, em setembro de 1966, faltando apenas cinco meses para a data marcada.

“Era apenas um pavilhão e o restante tomado por ônibus e carros”, lembra Michelon

Envolvimento da comunidade

Um dos grandes legados foi a união da comunidade. De forma voluntária, lideranças da sociedade dividiram-se em 16 comissões, cada uma responsável por um setor da festa. O dinheiro para construção do pavilhão veio de empréstimos da comunidade. Eram necessários pelo menos 50 mil cruzeiros e foram arrecadados 56 mil. Era preciso correr contra o tempo, já que a região ainda não tinha infraestrutura. Foi necessário desmatar, abrir acessos, estradas, construir alicerces, paredes, pisos e telhado do primeiro pavilhão. As obras contaram com apoio do Batalhão Ferroviário e ocorreram inclusive aos finais de semana e feriados.

A cidade toda se envolveu nos preparativos: os moradores pintaram, reformaram e embelezaram os jardins de suas casas; o comércio enfeitou as vitrines com criações trabalhosas e originais especialmente com bonecos feitos de papel machê. “De uma forma ou de outra, a primeira Fenavinho foi a verdadeira expressão cultural de nossa comunidade, cada pessoa, cada cidadão participou fazendo algo para a sucesso da festa”, relata a historiadora.

Pela primeira vez Bento Gonçalves recebeu a visita de um presidente da República, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco

A vinda do presidente

Entre os fatos que contribuíram para a notoriedade da festa está a vinda do presidente marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, possível graças a articulações políticas. O convite foi entregue pessoalmente ao presidente pelas mãos do deputado e então ministro da Indústria e Comércio Daniel Faraco, que tinha cabos eleitorais no município. Sempre que vinha a Bento Gonçalves, ele se hospedava na Casa Paroquial e mantinha amizade de longa data com o padre Mânica, quem lhe fez o pedido para que interviesse. A confirmação veio 15 dias antes da inauguração. “O Daniel Faraco contou que quando entregou a carta, o presidente teria dito ‘se o senhor me entrega esta carta, o senhor quer que eu vá. Diga para sua gente que eu vou’. Para ver como um ministro era reconhecido pelo presidente, era um homem de confiança. Ele só entregava uma proposta se fizesse sentido”, comenta Michelon.

A notícia da vinda de um presidente teve intensa repercussão na cidade e a Câmara de Vereadores outorgou o título de cidadão bento-gonçalvense a Castelo Branco, entregue durante sua passagem pelo município. 

Uma das consequências políticas da visita foi a conquista da estrada São Vendelino (hoje BR-470). Não fossem as más condições climáticas no dia da inauguração da festa, talvez o asfaltamento não tivesse saído tão logo do papel. A previsão inicial é que o avião presidencial pousasse no antigo campo de aviação no bairro Planalto, mas, devido ao tempo fechado a comitiva teve que se deslocar de automóvel. Partindo de Porto Alegre, passaram por trechos já asfaltados em Nova Petrópolis, Caxias do Sul e Farroupilha, e enfrentaram a, na época, precária estrada que passava pelo atual roteiro Caminhos de Pedra.

As condições da via surpreenderam o presidente, que se sensibilizou sobre a importância do asfalto para o desenvolvimento das potencialidades do município. “Quando chegou aqui a primeira palavra do Castelo Branco ao prefeito foi: ‘eu já disse para o governador que vocês merecem uma estrada melhor’. E foi a partir deste diálogo que as lideranças de Bento Gonçalves passaram a pressionar o governo do Estado”, conta Michelon. As obras iniciaram em setembro de 1968.

Vinho encanado

Outro grande fato responsável pela visibilidade da Fenavinho foi a distribuição de vinho encanado nas ruas da cidade. Foram instaladas duas tendas próximo ao pavilhão e uma no Centro. A ideia teve resistência inicial do vice-prefeito e do delegado. A principal preocupação era como controlar a população. “Nada aconteceu porque foi servido um vinho de mesa, suave, com baixo teor alcoólico. O pessoal ficava alegre, mas não deu problema”, recorda Michelon.  

O vinho, que até então desfrutava de uma imagem dúbia, entre potencial econômico e bebida “do pecado”, passou a ser tema de todos os sermões na missa. Os padres buscavam na Bíblia passagens e citações que falassem do vinho, “a bebida sagrada”, tanto é que, depois, o desfile dos carros alegóricos - realizado no dia 12 de março com 15 carros - teve como tema “O vinho na Bíblia”.

A distribuição da bebida tornou-se um marco tão forte que o país inteiro queria conhecer esta ousada comunidade. Para hospedar tanta gente foi feito um levantamento amplo de quantos quartos disponíveis havia nas casas e milhares de visitantes foram alojados pelas famílias. Conforme a historiadora Assunta De Paris foi a partir de então que começaram a surgir os primeiros cursos profissionalizantes fora dos colégios, como a formação para garçons com apoio do Senac.

Primeiro desfile alegórico teve como tema “O vinho na Bíblia” e contou com 15 carros

Impulso para a economia

O progresso ocasionado pela primeira Festa Nacional do Vinho fortaleceu não apenas a vitivinicultura, mas potencializou a vocação econômica do município. Apesar de serem apenas seis vinícolas (Dreher S/A vinhos e Champanhes, Cia. Mônaco, Cooperativa Vinícola Aurora, S. Fontanive e Filhos, Vinhos Salton e Cia. Vinícola Rio Grandense) o setor representava 60% da economia de Bento Gonçalves. A indústria moveleira, até então com pouca representatividade, começa a desenvolver-se. Foi na primeira Fenavinho que se projetou a primeira fabricação de móveis em série, da Barzenski. O parque de eventos construído em ocasião da Fenavinho possibilitou anos mais tarde o surgimento de outras importantes feiras como Movelsul, Fimma e Expobento.

Homenagens aos 50 anos

Enquanto a volta da Fenavinho é aguardada apenas para 2019, as Bodas de Ouro da “festa-mãe” serão comemoradas com uma série de eventos promovidos pelo Poder Público e entidades – a ideia é reunir cinquenta ações. “É uma forma de motivar a nova geração e os ‘importados’, para que saibam a importância da Fenavinho”, resume Michelon.



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