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10/10/2018 17:58:16, escrita por Greice Scotton Locatelli

Vida de... Fabiano Mazzotti: o acaso do sucesso

Acaso. Eis uma palavra que define muito da carreira profissional de Fabiano Mazzotti. Foi por acaso que ele se apaixonou pela fotografia e por acaso que teve a ideia de organizar o primeiro livro. Quatro obras literárias e um diploma de Bacharel em Comunicação Social depois, ele foi escolhido como escritor homenageado da 33ª edição da Feira do Livro, que iniciou na última quarta-feira, dia 10.

Mazzotti é a autêntica representação da palavra “multimídia”. A carreira como fotógrafo começou em 2001, quando ele trabalhava como diagramador em um jornal. O contato com o tratamento de imagens despertou uma paixão imediata que logo virou hobby e, em seguida, profissão. O acaso estava à espreita. Surgia o Fabiano fotógrafo.

Promovido a repórter da editoria de Esportes, ele começou o curso de Jornalismo na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Foram os contatos da época que garantiram uma viagem que abriria muitas portas: o Rally dos Sertões. A experiência, determinante na decisão de seguir carreira na área, também foi responsável pela visibilidade do trabalho. Três anos haviam-se passado quando ele conseguiu comprar a primeira câmera Reflex automática – até então ele contava com um modelo manual e com equipamento que pedia emprestado. 

 


 

Logo as imagens produzidas por ele começaram a ser publicadas nos principais jornais do país, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e o Globo, além de veículos do Rio Grande do Sul. A carreira, que começou por acaso, teve momentos memoráveis – além de três edições do Rally dos Sertões, ele fotografou, por exemplo, a abertura da Usina Monte Claro, em Veranópolis, que contou com a presença do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e dois momentos históricos do Clube Esportivo: a inauguração do Estádio Montanha dos Vinhedos, em 2004, e o jogo contra o Fluminense, pela Copa do Brasil, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro – foi o mais longe que o alviazul conseguiu chegar em uma competição nacional.

 

Fabiano é autor de uma das mais emblemáticas fotos de Bento Gonçalves. Crédito: Fabiano Mazzotti
 

Após dois anos dedicando-se exclusivamente à fotografia, com coberturas de aniversários, formaturas e eventos em geral, Mazzotti assumiu um novo desafio do acaso: tornou-se o fotógrafo oficial da prefeitura de Bento Gonçalves, durante a gestão do ex-prefeito Alcindo Gabrielli. “Essa experiência ampliou meus horizontes. Graças à função eu pude conhecer a cidade e percebê-la de um modo diferente”, relembra. Nas frequentes visitas de autoridades de outras cidades que o prefeito recebia em seu gabinete, Mazzotti identificou uma lacuna: não havia nenhuma publicação atrativa sobre a cidade que poderia ser dada como “recordação”. O acaso estava novamente à espreita. Surgia o Fabiano escritor.

Quatro livros, centenas de histórias

O primeiro livro começou a ser pensado em 2008 e virou realidade em 2010, através de uma parceria com o poeta Pedro Jr. da Fontoura. O livro “Bento Gonçalves em Foto Poesia” trouxe 120 imagens em comemoração aos 120 anos de emancipação política do município. “Eu queria algo que pudesse mostrar as características da região, o quanto a cidade é rica em detalhes e paisagens. Dos quatro livros, certamente foi o mais desafiador, pela inexperiência”, relembra. 

 


 

A carreira iniciada ao acaso logo tomaria outros rumos. Mazzotti começou uma especialização em Produção Cultural, ao mesmo tempo em que passou a se dedicar a outra obra que viria a se tornar um marco: o livro “Amém Bento Gonçalves – Igrejas e capelas desta terra” foi publicado em 2012, em parceria com o então pároco da igreja Santo Antônio, padre Izidoro Bigolin. “É uma forma de preservar uma história até então sem registros, que está apenas na memória das pessoas e que, por não ser contada para as próximas gerações, acaba por desaparecer dia após dia”, explica.

 


 

Ao encerrar a pós-graduação, o terceiro projeto acabou tomando forma: o livro “Amazônia – Estradas d’água”, publicado em 2013 em parceria com Marli Tasca Marangoni. Para a produção, ele passou 180 dias, entre idas e vindas, capturando imagens de rios, embarcações, transportes, modo de vida ribeirinha, belezas naturais e uma amostragem de fauna e flora. “Nesse caso já existiam obras semelhantes. Tentamos mostrar o modo de vida de um povo que usa os rios como meio de integração, que anda na água. Impressionou-me a atenção que a obra recebeu na região Norte do Brasil e, principalmente, dos estrangeiros”, alegra-se Mazzotti.

Novo desafio

A carreira literária deu lugar temporário a uma nova função, com o mesmo objetivo de valorizar a cultura local e a história: entre os anos de 2014 e 2015, Mazzotti se dedicou exclusivamente à captação de recursos para restauração do Museu do Imigrante, reaberto ao público em junho de 2016, após seis anos fechado. 

No final de 2015, Mazzotti foi convidado a escrever um livro alusivo a Aristides Bertuol, uma das personalidades mais importantes de Bento Gonçalves, que seria lançado em 2016, ano em que ele completaria um século de vida. A obra “Aristides Bertuol – O piloto da carretera nº 4” foi publicada em parceria com o engenheiro civil Gilberto Mejolaro.

 

Vem pelo menos mais dois por aí...


 

Talvez você tenha visto nas redes sociais imagens de um certo fusca marrom em meio a estradas de terra e parreirais. Pois saiba que o carro é o companheiro permanente de Mazzotti durante a produção de seu novo livro, que deve ser lançado em dezembro. A obra vai além da história de mais de 100 capitéis (aquelas pequenas capelas construídas geralmente no interior): ela mescla a história de dezenas de comunidades e de famílias. “Mais do que uma obra histórica, é uma obra jornalística. Fui a fundo à curiosidade, no querer saber mais, no tentar desvendar o que havia por trás de cada capitel”, comenta. 

 


 

Como o acaso é uma constante, ele contou com uma “forcinha” do destino. Durante um evento, em uma conversa informal com o economista Enio Gehlen, Fabiano soube da existência de um trabalho de faculdade feito há quase 40 anos justamente sobre o assunto do novo livro. E não é que as autoras foram encontradas e se tornaram parceiras da obra? Loiva Carraro, Nelcy Ballista e as irmãs Leonides, Sueli e Carmelina Ferrari – hoje com idades que variam de 72 a 92 anos – eram alunas do curso de Pós-graduação em Folclore da Faculdade Palestrina, em Porto Alegre. “Em 1981, sem nenhuma tecnologia, elas fizeram um levantamento de riqueza ímpar em seis meses, não só dos capitéis de Bento Gonçalves, que na época tinha Monte Belo do Sul, Santa Tereza e Pinto Bandeira como distritos, mas também Farroupilha, Veranópolis, Cotiporã e Vila Flores. A pesquisa delas está servindo como base do novo livro e sendo aprofundada. É um material importantíssimo já que muitos dos relatos são de pessoas que já faleceram e eram exclusivamente orais”, detalha.

 


 

Quer ter uma ideia do que vem por aí? Fabiano adianta que estarão no livro capitéis que atendem determinados pré-requisitos. Até o momento, foram identificados 110. Existem por devoção de pessoas nas comunidades, mas, principalmente, por pagamento de promessas de quem desejava alcançar algum tipo de graça. Os pedidos são de melhoras no estado de saúde, pessoas que desejavam casar, mães que não gostariam de ver os filhos convocados para a guerra ou pagamento de dívidas financeiras. “São as motivações da construção de cada capitel que queremos contar, perpetuando histórias de um tema que configura a cultura do imigrante italiano e oferecendo uma possibilidade de transmissão da informação às próximas gerações”, conta Mazzotti.   

Para 2019, outro projeto já está nos planos: um livro em homenagem aos 100 anos do Clube Esportivo, que será escrito em parceria com o radialista Alceu Salvi Souto.


 



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