Geral
01/11/2019 07:00:06, escrita por Greice Scotton Locatelli

Vida de quem nasceu para estar no palco

“Você nasceu para estar no palco, não na plateia”. A frase, dita pela professora Marilúcia Cantelli, mais conhecida como Luti, tornou-se uma espécie de profecia. O aluno era Matheus Toniazzi, de apenas 10 anos de idade.  Estudante da 5ª série, ele sempre gostou de arte, teatro e experiências desse tipo. 24 anos depois, Luti e Matheus se reencontraram: ela ainda professora, na mesma escola – o Colégio Marista Aparecida, em Bento Gonçalves; ele, ator, morando em São Paulo, vivendo o dia a dia de um sonho tão batalhado. Vidas opostas, mas com algumas palavras importantes em comum: gratidão, determinação, foco e sonho. O reencontro foi emocionante – como não poderia deixar de ser – assim como outros tantos que vieram nos poucos dias em que ele esteve em Bento Gonçalves, para passar as festas de final de ano com a família.

 


A família de Matheus 

 


Com a profe “Luti”, uma das primeiras pessoas a reconhecerem o talento de Matheus 

 

Mas quem é, afinal, Matheus Toniazzi? Talvez você já o tenha visto por aí, apesar de ele estar morando há 14 anos em São Paulo. Aposto que conhece os pais dele, Ivan Luiz e Evaniza Bertuol Toniazzi, quem sabe a irmã, Natacha, que é médica em Porto Alegre. Ou talvez acompanhe uma das pessoas com quem ele trabalha desde 2015, um tal Rodrigo Faro – sim, esse Rodrigo Faro, apresentador da Rede Record. É provável que você já o tenha visto na televisão, ou na internet. Ou quem sabe, ainda, o tenha conhecido 70kg atrás, quando ele participou de um reality show depois que a vida deu um daqueles sustos pelos quais só quem já passou sabe o quanto podem ser arrasadores.

 


Com o “chefe”, Rodrigo Faro 

Em um dos quadros do programa “Hora do Faro”

 

O fato é que Matheus é simplesmente um sonhador. Uma pessoa alto astral, bem-humorada, que já passou pelos mais variados perrengues e nunca desistiu: se manteve firme para superar cada desafio que a vida trouxe – e conseguiu! Aos 34 anos, formado em Publicidade e Propaganda e em Artes Cênicas, ele vive a carreira tão sonhada. Além da participação no programa “Hora do Faro”, pela Rede Record – é ator convidado do quadro “Faro Surpresa” –, ele também atua na peça “Há 2.000 anos”, em cartaz desde 2010, realizada pela Companhia do Ator, sob direção de Gabriel Veiga Catellani. No teatro, baseado na obra homônima de Chico Xavier, ele faz o papel do vilão Sulpício Tarquínio. As apresentações recomeçam neste sábado, dia 12, na Sala Laura Cardoso do Teatro West Plaza, em São Paulo. 

 


Como Sulpício Tarquínio, personagem da peça “Há 2.000 anos”

 

Matheus conta que o teatro é sua maior paixão principalmente pelo contato com a plateia: “A gente pode emocionar, fazer rir e chorar e percebe as reações na hora. Essa troca de energia entre ator e público não tem preço. Brinco que a gente pula do precipício, é algo que demanda improviso e espontaneidade. Teatro é verdade, por mais mentira que seja”, comenta.

 

Com a atriz Nicette Bruno


Como tudo começou

Foi ainda em Bento Gonçalves que os acasos começaram. Uma versão da turma da 5ª série para o programa “Sai de Baixo”, na época um sucesso na televisão, foi o primeiro “trabalho”. Depois, vieram peças apresentadas em língua inglesa no Yázigi, onde Matheus estudava. 

A paixão por lidar com pessoas o levou a se aventurar no curso de Relações Públicas, na Unisinos – o plano inicial era cursar Artes Cênicas na UFRGS, mas ele não conseguiu a vaga. Mas, como dizem, o que é para ser, será.  Levou um ano até que o destino se encarregasse de dar uma força: ele estava esperando o ônibus para ir à faculdade, em frente à igreja Santo Antônio, quando recebeu um panfleto anunciando uma seleção de atores para um Workshop em Artes Cênicas que aconteceria em São Paulo. Era o empurrão que faltava rumo ao precipício das coincidências da vida. 

“Eu sempre gostei, mas não sabia bem o que era arte. Quando essa chance surgiu, eu tinha 19 anos e só havia saído de Bento para uma viagem da turma do colégio a Porto Seguro (BA). Não fazia ideia de que São Paulo era um mundo paralelo, não sabia cozinhar, precisei aprender a me virar do zero. Muitas vezes eu ligava para a minha mãe, em Bento, e perguntava como se pegava ônibus, como se ela soubesse”, diverte-se. “Eu sempre levei como lema de vida ‘se der medo, vai com medo mesmo’”, ensina.

Na capital paulista, ele retomou os estudos na área de comunicação – dessa vez em Publicidade e Propaganda, curso no qual se formou pela FMU, mas cuja profissão nunca exerceu. “Quando sobrou uma grana, fui fazer Artes Cênicas pelo Teatro Escola Macunaíma, o segundo maior do Brasil. Aí eu me encontrei de vez”, comemora Matheus, que se formou no final de 2016.

Hoje ele é terceirizado pela Pellegrini Produções, uma agência por meio da qual pode atuar em várias emissoras. Entre os trabalhos mais recentes está uma participação na 2ª temporada de “Carcereiros”, no ar pela Rede Globo, quando teve a oportunidade de contracenar com Rodrigo Lombardi. Além disso, o currículo dele inclui quatro anos no programa “Legendários”, com Marcos Mion, e participação no “Turma do CQC”, da Band. Além do trabalho no programa “Hora do Faro”, Matheus faz campanhas publicitárias e testes de elenco. 


70kg eliminados sem cirurgia ou medicação

 


 

Matheus estava na carreira que tanto sonhou quando algo começou a incomodá-lo: o próprio peso. Com 152kg – 80kg a mais do que quando havia saído de Bento Gonçalves para se aventurar em São Paulo – ele percebeu que sua expressão corporal estava comprometida, assim como as falas, tão importantes tanto no teatro quanto na televisão. “Atuar exige pausas tanto dramáticas quanto de respiração. Eu só conseguia fazer as de respiração, vivia ofegante. No dia em que eu recebi uma crítica de que meu peso estava comprometendo meu desempenho como ator, eu me dei conta de que já não era só aparência”, conta. 

 


Matheus e o temido sargento Alexandre Bró tornaram-se amigos e vizinhos após o programa e seguem treinando juntos

 

Sabe o que dizem sobre as mães sempre terem razão? Pois é. “Minha mãe já havia dito que, se eu perdesse peso, meu leque de oportunidades se ampliaria. Não deveria ser assim, mas aparência conta muito nesse meio e quem está acima do peso acaba ficando restrito a personagens engraçados e caricatos”, diz Matheus. A preocupação do pai e da irmã também vinha de bastante tempo – desde a infância, ele sempre teve tendência a ganhar peso: “meu pai ficava chocado com a quantidade de comida que eu ingeria em cada refeição. Minha irmã é médica, então imagina”.

Após a crítica, Matheus começou uma dieta e conseguiu perder 5kg, mas ainda era longe do ideal. Como trabalha na Rede Record, ele tentou uma vaga no programa “Além do peso”, produzido pela emissora. Foram quatro seleções, sem sucesso – apesar da obesidade, havia outros casos mais graves que o dele. Sete meses depois da última tentativa, ele recebeu uma mensagem de Alexandre Bró, preparador físico que ele conheceu nos bastidores do trabalho e que sabia do desejo dele de emagrecer, falando sobre um novo projeto on-line. Era maio de 2016 e o reality “Se comer, não pare”, no Portal R7, estreou um ano depois. 

 


 

Nesse meio tempo, um segundo sinal de alerta deixou Matheus assustado. Ele teve uma síncope, uma espécie de desmaio. Foi ao médico e com os resultados de exames de sangue alterados, recebeu um ultimato: ou mudava ou iria morrer. “Eu estava com pressão alta, colesterol nas alturas, pré-diabético. Fiquei apavorado”, relembra. Houve ainda um terceiro baque, esse sentimental. “Minha sobrinha, Helena, hoje com 12 anos, reclamou que eu não conseguia sentar no chão para brincar com ela – eu não conseguia sequer amarrar meus próprios tênis naquela época. Aquilo mexeu bastante comigo”, conta. 

Temido sargento

O programa começou e Matheus entendeu porque o apelido de Bró é “temido sargento”. “Nos primeiros três meses foi horrível, eu sentia fome, dores absurdas por todo o corpo, ia para casa e chorava. Eu podia comer de tudo, mas de forma moderada e ‘pagando’ as calorias que eu ingerisse em dobro no dia seguinte, com exercícios físicos. Isso por si só faz com que a gente evite ficar pondo ‘o pé na jaca’ muito seguidamente”, explica. 

No primeiro mês, foram 19 quilos eliminados com muito suor e lágrimas. Alguns dias depois, quando atingiu a marca dos 21kg, ganhou um “presente” do treinador: o circuito 21. “Eram 21 exercícios, com 21 repetições cada, carregando uma mochila com 21kg de peso. Pensa em algo difícil: é muito mais”, conta. “Por situações assim, quando me perguntam qual é o segredo, eu respondo: é a cabeça. A mente é quem comanda”, ensina.

 


Matheus antes e após a eliminação de 70kg

 

Os 70kg foram eliminados no decorrer de sete meses sem cirurgia, medicação ou suplementação: só com (muito) esforço e força de vontade. “Eu treinava de 4h a 5h por dia e tinha que fazer 7 refeições, mas na verdade  conseguia só 5. Aprendi que comer demanda autoconhecimento e raciocínio e que exercício é fundamental”. A mudança no hábito se manteve: tanto que Matheus segue treinando 2h por dia e controlando a alimentação.  “Antes o esporte era obrigação, agora virou uma paixão, tanto que não consigo viver sem. Mal cheguei em Bento e já procurei uma academia para malhar”, conta.

Mas, obviamente, algumas mudanças na alimentação precisaram ser feitas, entre elas o adeus aos 2 litros de Coca-Cola que Matheus ingeria todos os dias. “Cortei refrigerante e não como mais carboidrato à noite. Aprendi que excesso e sedentarismo são os vilões e que dá para comer de tudo, desde que moderadamente. Mesmo substâncias ‘nocivas’, como açúcar, sal e gordura, precisam ser consumidas. O segredo é encontrar o equilíbrio e isso é algo muito pessoal”, diz.

Sete meses e 70kg eliminados depois, Matheus e o temido sargento seguem treinando juntos: agora como amigos e vizinhos.  O plano é se manter saudável, mas aumentar o peso. Como assim? Ganhando massa muscular. “Agora estou 7kg mais pesado. Ganhei 4kg de massa magra, malhando, e 3kg por puro desleixo, que logo serão eliminados. A saúde, que era um dos meus principais objetivos, eu consegui resolver. Agora, meu empenho é para me manter e ficar com um corpo legal, definido naturalmente através do exercício físico. Estamos trabalhando para preencher com músculo as áreas onde restou muita sobra de pele. Eu faria tudo de novo, sem hesitar”, garante. “Não teria conseguido sem o apoio dos meus pais, da minha irmã e da minha sobrinha, família é a base de tudo. A todos que acreditaram nessa história louca e nesse processo intenso, agradeço de coração”, finaliza.

Referência nas redes sociais

A participação no reality deu uma visibilidade que Matheus jamais esperou: ele virou referência quando o assunto é emagrecimento nas redes sociais. “Confesso que é estranho ter virado espelho e inspiração para outras pessoas em função disso. Recebo várias mensagens. E pensar que um ano antes eu estava daquele jeito e hoje ensino outras pessoas”, analisa. “As pessoas me perguntam: ‘quando devo começar?’ e eu respondo: Agora! ‘Qual o segredo?’: parar de arranjar desculpas ou o momento ideal. Eliminar expressões como ‘não dá’, ‘amanhã eu faço’, ‘não consigo’, ‘deixa pra depois’. Tem que tentar”, comenta Matheus. O reality “Se comer, não pare”, está disponível no portal R7 e no Youtube. 

 


 

Esta é a 107ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 



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