Geral
02/01/2019 07:00:04, escrita por Greice Scotton Locatelli

Série especial Vida de...: viajar, viver e ser feliz

Um casal de jornalistas disposto a deixar para trás família, amigos e carreiras em nome de um bem maior: autoconhecimento. A rotina de Carina Furlanetto, 31 anos, e João Paulo Mileski, também 31, vai mudar radicalmente nas próximas semanas. Juntos há quase nove anos, em fevereiro eles embarcam na maior aventura de suas vidas, uma viagem de carro por países da América do Sul. Mas não pense que se trata de uma jornada qualquer: trata-se de um projeto de vida que tem até nome – Crônicas na Bagagem.

 


Carina e João estão juntos desde 2010. Foto: Ênio Bianchetti

 

“No final de 2015, enquanto planejávamos uma viagem de carro até o Uruguai, nos deparamos com sites e blogs de viagens e começamos a ter os primeiros contatos com o universo de ‘gente que larga tudo para viajar’. Surgiu a ideia de criarmos algo para falar sobre as nossas viagens, mas que não fosse no estilo ‘o que fazer em tal lugar’. A ideia seriam textos que falassem mais sobre a nossa experiência em si. Entre as diversas possibilidades de nome, surgiu o ‘Crônicas na Bagagem’”, conta Carina.

Fã do estilo literário justamente pela versatilidade, ela diz que o complemento “bagagem” pode se referir tanto à mala e outros objetos carregados durante uma viagem como, de forma figurada, à experiência de vida como um todo. “Dessa vida nada levamos, a não ser as experiências que vivemos e se essas vivências virarem texto, o que teremos serão crônicas na bagagem”, explica. Empolgados com a ideia, eles criaram naquele mesmo ano um esboço do primeiro logotipo. A viagem aconteceu, mas o blog não saiu do papel. “Estávamos esperando algo maior do que apenas uma semana de férias”, relembra Carina. 

 


 

Nos três anos seguintes, muita coisa mudou. “Eu comecei a cursar Psicologia e o João, Filosofia. A ideia de largar tudo e viajar acabou ficando adormecida aguardando o “momento ideal”, que pensávamos ser depois da formatura ou com uma demissão repentina. No início de 2017, fizemos outra viagem longa de carro, foram 16 dias até Minas Gerais. Não só reacendemos o desejo de uma viagem mais longa, como também conhecemos casais que estavam fazendo isso, mostrando que não era pura utopia nossa. Nesse mesmo ano também tive contato com outras histórias parecidas, dessa vez como repórter” – Carina era jornalista do SERRANOSSA e uma das coautoras da série ‘Vida de...’, da qual agora ela e o namorado são personagens. 

 


Viagem mais recente do casal foi para a Europa. Foto: arquivo pessoal

 

O desejo adormecido voltou a ganhar força no início do ano passado, quando o casal iniciou um processo de autodescoberta. “Decidimos que não valia a pena esperar pelas condições ideais, porque talvez elas nunca fossem chegar. Recriamos o logotipo, mantendo a mesma concepção original e acrescentamos nele um subtítulo – ‘uma jornada de autoconhecimento’ –, que é o que estamos nos propondo a fazer. Ao nos permitir conhecer outros lugares e outras culturas, entraremos, de certa forma, cada vez mais em contato com quem somos, porque ao olhar para fora a gente também olha para dentro. Gostamos de dizer que somos um casal de contadores de histórias viajando de carro pela América do Sul. Mais do que escrever crônicas, queremos contar histórias, seja a nossa, a dos lugares que conhecermos ou de quem cruzar o nosso caminho”, comenta Carina.

 


Foto: arquivo pessoal

 

Fontes de renda

A única fonte de renda garantida é o aluguel do apartamento em que eles moravam, mas isso não será suficiente para bancar todas as despesas. João explica que uma das ideias foi confeccionar camisetas de divulgação do projeto e usar a renda para custear os gastos iniciais. “Como jornalistas, estamos dispostos a fazer alguns trabalhos no caminho, até mesmo permutas por hospedagem. De qualquer forma, temos a grana que economizamos ao longo das nossas vidas, e estamos decididos a investir tudo no projeto e, se for o caso, começar do zero na volta. No meu caso, talvez o mais difícil, até aqui, tenha sido a decisão de parar a faculdade faltando um ano para me formar e deixar o nosso canto para morar um tempo na casa do meu sogro, o que nos forçou, também, a abrir mão de muitos objetos pessoais, como roupas e livros. Mas isso, de certa forma, já me fez ver as coisas sob outra perspectiva, de que é possível viver com muito menos do que tínhamos, e isso não deixa de ser uma preparação para a viagem, já que obviamente não vamos ter espaço para levar tudo o que tínhamos em casa. Se estamos nos propondo a ‘uma jornada de autoconhecimento’, acho que essa é a primeira lição que o projeto já deixou: a propaganda nos coloca em uma roda de consumo sem fim, enquanto isso o tempo passa sem darmos valor ao que realmente importa”, detalha.  

 

Reação da família

A reação das duas famílias foi, obviamente, de surpresa. “Por mais que soubessem do nosso gosto por viagens, não imaginavam que abriríamos mão de tanta coisa para um projeto como esse. Trancamos faculdade, alugamos o apartamento, eu abri mão de proposta de trabalho e a Carina pediu demissão, sem contar que vamos gastar praticamente tudo o que temos. Então foi bastante coisa para assimilar! Mas hoje, com o passar do tempo, eles não apenas entendem quando veem nossos olhos brilhando, como incentivam. Estão tão ansiosos e entusiasmados quanto nós!”, garante João.

Para Carina, o mais difícil no processo foi o conflito de gerações. “Para quem é de outra geração, que tinha como prioridade a formação de uma família e a construção de uma carreira profissional com estabilidade, demora um pouco para assimilar a ideia de ‘sair do sistema’, mesmo que apenas por um ou dois anos. Mas, de maneira geral, sempre fomos muito responsáveis, principalmente com o dinheiro, o que deixa as nossas famílias mais tranquilas. No final, o que importa para eles é que a gente esteja feliz, independente dos rumos que tomarmos na vida”, completa. 

Quanto a outras pessoas, eles contam que a reações são as mais variadas possíveis: “muitos se assustam, como se não acreditassem, outros dizem que vamos concretizar um sonho que gostariam de realizar. Mas o mais legal é que muitos amigos, com os quais não tínhamos contato há muitos anos, quando souberam do projeto, nos chamaram para dizer que estão torcendo por nós, o que nos motiva ainda mais”, diz João. 

 


Foto: Pedro Eduardo Strada

 

O roteiro

João explica que a ideia é começar a viagem no dia 18 de fevereiro e percorrer pelo menos 10 países da América do Sul e todos os Estados do Brasil. “Estimamos ter o orçamento para aproximadamente dois anos na estrada, então vamos tentar adequar o roteiro a este tempo. Quanto à rota, temos alguns marcos, o primeiro deles é Ushuaia. Antes disso, vamos passar pelo Uruguai, onde deveremos ficar por cerca de 15 dias. Há outros lugares que sonhamos conhecer – Deserto do Atacama, Salar do Uyuni e Machu Picchu, por exemplo. Esses são alguns pontos que já definimos, mas não queremos nos prender muito a um roteiro. A ideia é termos flexibilidade para explorar lugares que descobriremos ao longo do caminho ou por indicação de outros viajantes e moradores locais. Queremos seguir até o Norte (Venezuela, dependendo da situação do país) e entrar no Brasil por essa região. ”, explica João. 

 

Os desafios técnicos

Viver em um carro é uma situação que demanda bastante planejamento. O casal estará a bordo de um Sandero 2014. “No início, cogitamos a troca por uma Kombi, por exemplo, mas se por um lado teríamos mais espaço e conforto, por outro, os gastos com manutenção e combustível seriam maiores. Então pensamos em adaptações no nosso carro de passeio mesmo. Fizemos apenas o que acreditamos ser o essencial, que é a instalação de uma bateria extra para carregar os celulares, notebooks e câmeras. Fora isso, instalamos um bagageiro de teto, com espaço suficiente para acomodar todos os pertences necessários. Outro desafio será gastar o mínimo possível com hospedagem, por isso vamos levar barraca, saco de dormir e colchão inflável. Se houver a necessidade, também estamos preparados para dormir no carro – já testamos e acreditamos que podemos sobreviver algumas noites”, diz João.

 


Foto: Pedro Eduardo Strada

 

Longe do ideal, mas perto do objetivo

Eles explicam que a definição do carro também tem a ver com a proposta de incentivar as pessoas a correrem atrás dos seus sonhos mesmo quando as condições não são as ideais. “O ideal, claro, seria um motorhome, com banheiro, cozinha e uma cama confortável, mas decidimos viver agora, com o que temos, ao invés de desperdiçar outros tantos anos juntando dinheiro para comprar um veículo ideal”, enfatiza João. “Nesses últimos meses, conhecemos pessoas que estão rodando o mundo de carona, bicicleta, fusca e até de Fiat 147! Todos dão o seu jeito, mostram que é possível e estão realizando sonhos todos os dias. Mesmo que outras pessoas nos considerem ‘malucos’, achamos que temos o suficiente”, comenta João.  
 

Convivência 24 horas

Depois de quase 9 anos de relacionamento, conviver 24 horas por dia não é um desafio dos mais difíceis, garante Carina. Desde que eles se mudaram para a casa dos pais dela e ambos deixaram seus empregos, a rotina tem sido essa: “assim como todos os casais, tem momentos em que queremos nos matar (sobretudo na TPM!) ou em que discutimos por divergir de opinião. É claro que durante uma viagem, limitados ao espaço de um carro, os ânimos podem ficar exaltados, mas com uma boa dose de paciência a convivência é possível. O mais importante é que os dois estão afinados neste propósito de vida.”

 


Foto: Pedro Eduardo Strada

 

Os preparativos

Carina conta que uma das primeiras providências foi alugar o apartamento onde eles moravam – o que permite uma renda mensal – e conseguir alguém para cuidar do gato de estimação, Ginger, enquanto eles estivessem fora. Desde novembro, eles se mudaram para o apartamento dos pais de Carina, também lar temporário do Ginger. “Em paralelo, começamos a desapegar de muitas coisas, vendendo roupas, livros, itens de decoração e outros objetos. O mais difícil nesse processo todo – que está sendo bem transformador – é aprender a lidar com as incertezas que vão surgindo, desde quanto tempo a viagem vai durar até o que faremos quando voltarmos”, explica Carina. 

Logística do dia a dia

“Sabemos que nem sempre vai dar para tomar um banho quentinho ao final de um dia estressante, por exemplo. Acreditamos que é possível gastar uma média de R$ 100 diários com combustível, alimentação e hospedagem. Levaremos um pequeno fogão para poder cozinhar e tentaremos ao máximo economizar com hospedagem. Pelos relatos de outros viajantes, nos países vizinhos há uma boa estrutura em postos de combustível, tanto para tomar banho como para dormir. Já tivemos algumas experiências em campings com barraca e esta também é uma alternativa, já que os locais costumam contar com estrutura para tomar banho e lavar roupa, por exemplo”, detalha Carina. 

 


Foto: arquivo pessoal

 

Quer conhecer mais e acompanhar o Crônicas na Bagagem?

Acesse https://www.facebook.com/cronicasnabagagem/ ou www.cronicasnabagagem.com/blog


 

Esta é a 110ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 



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