Geral
17/01/2020 08:15:48, escrita por Greice Scotton Locatelli

A vida depois de um transplante de células-tronco

Três meses após o procedimento, feito na Tailândia, melhora é visível, mas Willian ainda tem muito caminho a percorrer

Há três meses, a família Rocha Pires viveu a mais angustiante, esperançosa e recompensadora experiência de suas vidas. Em outubro, Rejane da Rocha Pires e os filhos Bruna e Willian viajaram para Bangkok, na Tailândia, onde Willian foi submetido a um transplante de células-tronco buscando amenizar as sequelas de uma paralisia cerebral sofrida quando ele tinha 2 anos e 10 meses de idade, após uma crise de laringite e bronquite. O tratamento só foi possível graças à ajuda de toda a comunidade, que adquiriu rifas, fez doações em pedágios, depósitos bancários ou participou de eventos beneficentes. Ao todo, foram R$ 170 mil arrecadados.

 


Foto: Greice Scotton Locatelli

 

Os primeiros resultados são visíveis: a postura dele melhorou, assim como o equilíbrio e a posição das mãos e dos pés. A cadeira de rodas foi praticamente abandonada, já que Willian agora consegue se locomover com um andador. “Ele também se ajuda agora, o que facilita muito na hora de transportá-lo. Antes era todo peso, agora está muito mais leve”, descreve Rejane. Quem viu Willian antes da viagem e quem o vê agora nota uma leveza a mais também na alma: ele está mais ativo, falante e brincalhão, um típico adolescente de 18 anos. 

O processo, como já se esperava, é lento e exige esforço extra, com fisioterapia e acompanhamento multidisciplinar. Rejane conta que, segundo os profissionais que atenderam Willian, o efeito das células-tronco no organismo permanece por seis meses. Nesse período, é decisivo estimular as áreas que precisam ser recuperadas – no caso dele, as funções motoras. Também é preciso um cuidado extra para que ele não tenha nenhuma infecção ou problema de saúde que automaticamente fará com que as células-tronco ajam na região afetada. 

O acompanhamento de Willian segue intenso: são quatro sessões de fisioterapia por semana, além da estimulação feita em casa. Mesmo assim, nem se compara ao “intensivo” feito na Tailândia logo após o transplante, que incluía acupuntura, hidroterapia, oxigenoterapia hiperbárica, terapia de estimulação elétrica e fisioterapia. “Analisando pelo lado financeiro e logístico seria inviável mantermos esse nível, embora fosse um grande sonho nosso. Estamos adaptando a nossa realidade para dar ao Willian o melhor suporte possível e aproveitar enquanto as células-tronco estão agindo no organismo dele”, detalha Rejane. 

Pedágio

A mobilização continua: o próximo grande passo da família é arrecadar recursos para que Willian seja submetido, em Caxias do Sul, a sessões de fisioterapia neuropediátrica pelo protocolo PediaSuit. Trata-se de um recurso para tratamento intensivo, que mescla exercícios com o uso de um macacão terapêutico ortopédico para promover um ajuste biomecânico no paciente com sequelas neurossensoriomotoras. “O custo total da primeira fase do tratamento é de pouco mais de R$ 12 mil, mas temos grandes expectativas por ser intensivo. É bem parecido com o que ele fez enquanto estávamos na Tailândia”, conta Rejane. Uma das primeiras ações de arrecadação será um pedágio solidário que acontece no dia 25/01, na praça Vico Barbieri. 

Também não está descartada mais uma viagem, para um novo transplante que poderia ajudar ainda mais na recuperação dele. “Seria maravilhoso, há relatos de pacientes que praticamente se recuperaram por completo com mais de um transplante. Mas preciso ser realista: já foi um verdadeiro milagre termos conseguido arrecadar o valor da primeira vez. Gratidão a todos que ajudaram nesse processo”, agradece Rejane. 

 


Foto: Arquivo pessoal

 

A viagem

Rejane, Willian e Bruna saíram de Bento na noite de 13 de outubro, um domingo, e chegaram ao destino na terça-feira, dia 15, por volta do meio-dia. “Nosso voo tinha várias escalas, mesmo assim não chegava nunca, especialmente de São Paulo a Dubai”, relembra Rejane. 

Ela conta que nunca sentiu tanta insegurança na vida: além de estar saindo pela primeira vez do país, não sabia exatamente o que encontraria. “Eu tinha até medo de ter caído em um golpe, nem dormi no avião pensando que chegaríamos lá e descobriríamos que tínhamos sido enganados. Mas pelo contrário: já no aeroporto havia representantes do hospital nos esperando e tivemos acompanhamento durante todo o período em que ficamos por lá”, detalha. Ela diz que se surpreendeu com a estrutura. “A gente está acostumado com um hospital grande que nem o Tacchini, mas o Better Being Hospital (BBH) é do tamanho de uma clínica de reabilitação daqui. Mesmo assim, a organização deles é impecável: fomos acomodados em um hotel próximo, eles providenciavam todo o transporte. Como todos os pacientes de fora ficam hospedados nesse hotel, eles disponibilizam uma enfermeira de plantão que fica lá, caso seja necessário, além de tradutores”, conta. O BBH é o primeiro da Ásia especializado em Medicina Funcional.

 


Foto: Arquivo pessoal

 

A diferença cultural pesou bastante, especialmente o idioma e a culinária. “Eu e a Bruna até tentamos aprender inglês antes de ir, mas não deu muito certo, acabou que o Willian sabia mais do que nós. Mesmo assim conseguimos nos virar e garantir risadas de quem tentava entender o que queríamos”, diverte-se. A comida, no entanto, foi uma barreira maior. “O Willian fazia todas as refeições no hospital e nós, no hotel. Tinha frigobar e fogão, mas era bem difícil encontrar os ingredientes, é tudo muito diferente, eles não usam óleo, a carne e o arroz são estranhos. Como ir a restaurantes era muito caro, eu e a Bruna não tomávamos café da manhã nem jantávamos, apenas almoçávamos no meio da tarde”, diz Rejane. Willian também teve dificuldade em adaptar o paladar. “Comida de hospital é sempre comida de hospital. Lá eles serviam camarão, peixe e carne, mas tinha muito tempero e condimento. Fiquei bem mal depois de comer carne de porco, não estava acostumado”, explica.

 


Foto: Arquivo pessoal

 


 


Foto: Arquivo pessoal

 


Foto: Arquivo pessoal

 


Esta é a 154ª reportagem da série, que busca incentivar o respeito através de diferentes histórias de vida. 




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