Geral
14/08/2020 11:18:11, escrita por Eduarda Bucco

A pandemia está atrasando o processo educacional?

A solução encontrada para dar sequência ao ensino, mesmo com as restrições impostas devido à pandemia do Coronavírus, foi a utilização de plataformas on-line. A partir de então, um dos principais desafios, principalmente da rede pública de ensino, foi o acesso à internet. Mesmo após medidas como a retirada presencial de materiais pelos pais, para realização em casa, muitos alunos continuam se queixando do que pode ser considerado o principal problema do ensino atual: a dificuldade para entender os conteúdos.

Para a aluna do Ensino Médio da escola Alfredo Aveline Amanda Zanette, a experiência está sendo inteiramente diferente tanto em questão de interação, quanto da forma de ensino dos conteúdos e avaliações. “A questão do aprendizado varia muito, mas no geral, a explicação presencial de um professor faz muita falta, independentemente da matéria”, afirma. 


Amanda Zanette, 17 anos
 

Ensino parado

Em algumas instituições, nem mesmo as aulas on-line foram introduzidas após o início da pandemia. É o caso do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). Para a estudante do segundo ano do Ensino Médio do campus Bento Gonçalves Júlia Salvadori, a perspectiva de que será necessário repetir o ano é grande. “Alguns professores passam atividades, slides com matéria e vídeo, mas não é obrigatório. Não vale presença, então não conta para validar o ano. E uma grande parte da turma não está fazendo. Eu sempre faço as atividades e, mesmo assim, tenho dificuldades. Consigo entender as matérias, mas muitos colegas não estão conseguindo”, relata. 

Desde o início da pandemia, o Grupo de Trabalho (GT) Retomada do Calendário Acadêmico do IFRS tem atuado com o propósito de encontrar soluções para a retomada das aulas. Entretanto, muitos colaboradores e estudantes afirmam que a introdução das aulas on-line acabará excluindo alunos que não possuem computador e/ou internet em casa. No dia 17/06, o Ministério da Educação (MEC) autorizou, por meio da portaria nº 544, a substituição das atividades presenciais por aulas a distância em instituições federais de Ensino Superior até 31 de dezembro de 2020.  Mas até o momento, nenhuma solução concreta foi divulgada. 


Júlia Salvadori, 17 anos
 

“Sobre o que vai acontecer eu não sei. Acho que seria inviável recuperar o ano agora, pois já foram cinco meses de aula perdidos, ainda mais se levar em conta que temos aula em turno integral. Impossível recuperar sem ter perda de aprendizado, que fará falta futuramente no ENEM e nos vestibulares. Não sei dizer como vai ficar nossa situação. O IFRS vem fazendo reuniões para tentar resolver o problema, todas abertas ao público, mas até agora nada foi decidido”, revela Júlia. 

A visão dos professores

“Hoje a gente está dentro da casa dos alunos. A sala de aula é a minha casa e a casa deles. Então os pais que talvez, antes, não conhecessem o nosso trabalho, hoje estão vendo como conduzimos as nossas aulas e como nos dedicamos para isso. Porque a gente tem trabalhado muito para preparar essas aulas e buscar adequar os recursos que temos, para que se torne algo dinâmico e prazeroso. Acho que isso é uma experiência que vai auxiliar na valorização do nosso trabalho”, analisa a professora de Português e Literatura do colégio Marista Aparecida, Adriana Elias Josende. Apesar dos desafios, a profissional acredita que as aulas on-line trarão aprendizados valiosos tanto para os professores e alunos, quanto para as próprias famílias. 

Além da valorização do educador, Adriana avalia que a metodologia a distância poderá acelerar o processo tecnológico na sociedade. “Trabalho com alunos do 7º ano e do Ensino Médio e acho que, apesar de tudo, esse novo formato veio para ficar. A gente conseguiu, em meio a essa loucura toda, encontrar outra forma de dar aula, outros recursos que, talvez, numa situação não adversa, talvez a gente não tivesse buscado e aprendido”, comenta. “Nós utilizamos a plataforma ‘Teams’, que dá muito suporte para que as aulas sejam dinâmicas. Também temos um livro didático on-line que eles conseguem ter acesso. A cada 15 dias fazemos uma reunião para saber se estamos dando conta do conteúdo. E estamos sim conseguindo vencer o conteúdo proposto”, afirma Adriana. 


Professora Adriana Elias Josende
 

Dessa forma, o principal desafio na visão da professora é a falta do contato físico com o aluno, “o olhar para poder ver se ele está aprendendo direito e o sentir se ele está em um dia bom ou ruim”. Para Adriana, a maior preocupação no ato de ensinar é que os estudantes aprendam porque gostam, e não por imposição ou pela necessidade de notas. “No presencial tinha uma grande diferença que era poder começar o dia dando um sorriso, um abraço. Eu sempre fui muito mãezona, de sentir quando eles não estivessem muito bem. Chegar perto, perguntar se aconteceu alguma coisa e perguntar se estavam entendendo os conteúdos”, relata. 

O mesmo sentimento é relatado pela professora de História e Música Rosana Três, também do Aparecida. “O maior desafio, e que não será superado à distância, é do contato que tínhamos. Isso não há recurso, formação, pesquisa que vá trazer nesse modelo. Nos resta fazer o melhor proveito da situação que vivemos hoje e aguardar o fim deste ciclo”, comenta a professora. 

Segundo a professora do 4º ano do Ensino Fundamental Rejane Maria Picetti Carbonera, da escola Municipal de Ensino Médio Alfredo Aveline, a falta do contato físico com os alunos está sendo driblada com a criação de novas formas de interação e auxílio. “A maioria dos alunos desenvolve a aprendizagem com grande dedicação, empenho e responsabilidade. Então acredito que estão aprendendo sim, cada um do seu jeito. Para os alunos que não têm internet, a escola disponibiliza material impresso. Também são utilizados aplicativos de mensagens para que todos os alunos, de uma maneira ou de outra, consigam ter acesso  as aulas”, comenta. 

Para superar esse obstáculo, as professoras afirmam que têm buscado recursos diversos, como jogos, brincadeiras e projetos, sempre adaptando o conteúdo para a linguagem dos estudantes. “O exercício do olhar atento do professor é constante: tudo que norteia a vida do estudante para além da aprendizagem e das possíveis dificuldades, deve ser levado em consideração, pois o termo educação é mais amplo: é também orientar, ajudar a compreender e lidar com as emoções, situações e frustrações do cotidiano”, analisa Rosana. 


Professora Rosana Três

Para tanto, a profissional acredita que a figura dos pais seja fundamental para preencher a lacuna desse contato presencial com os professores. “O papel dos pais é fundamental em qualquer um dos modelos, presencial ou remoto, mas se torna um pouco mais importante nesse momento, pois falamos de crianças e adolescentes que precisam de orientações de um adulto. Quando um educando é assistido em casa e atendido em suas necessidades, ele apresenta uma diferença não apenas na aprendizagem em si, mas na autoconfiança e autoestima que ele adquire por ser olhado e, nesse caminho, cria-se condições para a sua independência e autonomia”, explica Rosana. 

Para Rejane, o suporte dos pais é essencial para que os alunos sejam incentivados e auxiliados nas tarefas e trabalhos solicitados. “A família tem um papel muito importante no desenvolvimento do aluno, ensinando a responsabilidade em relação as atividades”, afirma.

Questionadas sobre uma visão geral da eficiência desse aprendizado a distância, as profissionais avaliam que, na medida do possível, o ensino está, sim, caminhando. “Estamos seguindo da melhor forma que podemos, abraçando o mundo com toda a entrega de quem escolheu a profissão que ama”, declara Rosane. “Todo aprendizado serve para a gente crescer. Então que possamos tirar uma lição para a vida. Todo professor que realmente ama educação está tentando fazer, desse momento, o melhor possível”, conclui Adriana. 

Previsão de retorno

No início da semana, o governo do Estado do Rio Grande do Sul apresentou uma proposta de retorno gradual e escalonado das aulas a partir do dia 31/08, para as redes pública e privada. Nessa proposta, o primeiro nível a voltar seria o Ensino Infantil. O Ensino Superior retornaria em 14 de setembro, o Médio e Técnico, em 21 de setembro, os anos finais do Ensino Fundamental, em 28 de setembro e os anos iniciais, em 8 de outubro. O retorno às aulas presenciais ocorrerá, pela proposta do Estado, somente nas regiões que estiverem em bandeira amarela e laranja.

Agora, a proposta está sendo debatida internamente dentro das 27 associações regionais de municípios e analisada, novamente, em reuniões que ocorrerão ao longo das próximas semanas.

Cronograma proposto de retorno às aulas

31/8 – Ensino Infantil (público e privado)
14/9 – Ensino Superior (público e privado)
21/9 – Ensino Médio e Técnico (público e privado)
28/9 – Ensino Fundamental – anos finais (público e privado)
8/10 – Ensino Fundamental – anos iniciais (público e privado)




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