O hobby que virou profissão

As mãos de Raul Sartor Filho, de 38 anos, dão vida aos metais nobres. As pepitas são fundidas e transformam-se em facas, cuias, camafeus e até quadros. Com precisão, suavidade e muita paciência, surgem criações que mais do que encantar aos olhos podem ser verdadeiras obras de arte e fonte de inspiração para outros artistas – suas peças serviram de base para estampas de tecido, poesias e músicas.  “Estou vivendo muito melhor agora, trabalhando com arte, do que quando ganhava muito bem trabalhando com engenharia. Tive o carro do ano, podia sair e me divertir sem a preocupação de dinheiro. O que faz me sentir bem hoje é que eu acordo sabendo que eu vou trabalhar no que eu gosto”, garante.

Raul já perdeu a conta de quantas peças fez nos últimos 17 anos. Começou a trabalhar com couro e depois descobriu os metais. Por definição, é um prateiro – profissão em extinção no país, mas ainda bastante difundida na Argentina – mas sua essência é de artista.

Cerca de 95% dos clientes ele conhece apenas via e-mail, que é como a maioria das encomendas são feitas. Com ajuda de aplicativos de tradução – ele já recebeu até mesmo pedidos em mandarim – a comunicação é possível e suas peças já foram enviadas para seis países diferentes. A clientela inclui artistas famosos e personalidades conhecidas, cujos nomes são preservados. Uma das canetas-tinteiro de sua criação foi encomendada pela ExpoBento para presentar o governador José Ivo Sartori durante sua visita à feira.  Todas as peças produzidas por ele têm certificado de autenticidade registrado em cartório.

A arte sempre esteve presente na vida de Raul. Ele lembra que na infância e adolescência gostava de desenhar e usava o porão da casa como espécie de oficina para suas criações. Tentou trabalhar com diferentes materiais, mas a falta de técnicas fazia que muitas criações fossem parar na lata do lixo. Embora quisesse viver da arte, o estigma que ela ainda tem no país o fez optar por uma carreira mais tradicional. 

Apaixonado pela cultura gaúcha – frequenta Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) desde os sete anos de idade –, sua profissão surgiu de um hobby por conta da ligação com o movimento. No ano 2000, um amigo do movimento tradicionalista lhe mostrou uma peça em couro que estava confeccionando e Raul demonstrou interesse em aprender por conta da dificuldade em encontrar uma bainha de faca de seu agrado. “Ele me deu um pedaço de couro e, em cima do que me ensinou, fiz a tal bainha e gostei”, lembra. A partir de então começou nas horas vagas a fazer peças para uso pessoal e para presentear os amigos e familiares. Na época, trabalhava como projetista de máquinas em uma empresa na cidade e cursava Engenharia Mecânica na Unisinos. O emprego era considerado um pouco maçante – ele não gosta de ter um chefe e seguir ordens – mas a boa remuneração fazia com que seguisse no ramo.

Após os primeiros trabalhos com couro, o interesse na lida com metais surgiu forte. A dificuldade de encontrar um profissional que reproduzisse um camafeu que havia desenhado para um presente de aniversário o motivou a fazer os primeiros testes em 2003. Pegou as ferramentas emprestadas com um amigo joalheiro e sozinho fez a peça. Depois, veio uma fivela de um cinto para presentear o irmão. Foi quando viu a oportunidade de uma nova profissão, como extra, seguindo na empresa. Por conta do cinto do irmão e de um que fez para ele próprio, o trabalho começou a ser notado nos eventos tradicionalistas e os pedidos aumentaram.

Em 2004, Raul criou um blog para divulgar as criações e a procura só cresceu. “Lembro que a primeira peça que eu vendi foi para o Chuí”, conta. Na época, a parte de fundição ainda era feita pelo amigo joalheiro, que começou a ficar sobrecarregado. Foi quando o prateiro decidiu montar a própria oficina. Em 2006, pediu demissão da empresa e largou a Engenharia para mergulhar no novo ofício. “A arte falou mais alto”, afirma. Era o antigo sonho de ser artista virando realidade. “Era uma brincadeira que se tornou uma profissão. Não troco por nada; consigo viver dela. Tenho conquistas profissionais e pessoais em cima do que eu faço hoje. Se eu tivesse que voltar a trabalhar como empregado, não sei se conseguiria”, avalia.

A parte mais difícil das criações, segundo ele, é iniciar. “Todas as peças são um desafio. Não transmitindo para o metal o início, o risco a ser feito, dificulta saber como ela vai ser no final”, explica. Embora faça um desenho inicial para guiar o trabalho, nem sempre segue à risca a proposta – exceto nas encomendas para clientes.

Raul não reduz ao talento a explicação para a representatividade das suas criações. Para ele, é resultado de persistência e dedicação. Ele pode ser considerado um autodidata, já que o primeiro curso fez somente em 2015, quando já estava no ramo há mais de uma década. Procurava inspirações e técnicas em livros argentinos e também em videoaulas de joalheria, uma vez que a técnica básica é semelhante. Raul sonha grande: inspirado por Da Vinci, deixa mensagens secretas nas suas peças – possíveis de serem vistas somente com lupa.

A vivacidade de algumas criações até o impressionam. Ele cita um quadro feito retratando uma cena do cotidiano em que foram usados os conceitos de perspectiva (herança da época em que estudou Engenharia). No dia a dia, alia conhecimentos de química, física e matemática, além da história, já que gosta de pesquisar a origem e os significados de cada elemento que cria. “Quando a gente faz o que gosta, não vê o tempo passar”, destaca ele, que chega a trabalhar entre 13 e 14 horas por dia.

O reconhecimento pelo seu trabalho iniciou primeiro no exterior e somente agora está ganhando força na cidade. “O Brasil é rico em talento, mas pobre em mentalidade, não usufrui dos artistas que tem. Tem artistas reconhecidos fora dele, mas as pessoas se chocam na rua e não sabem que tem grande valor lá fora”, lamenta.

“Um mate para a liberdade”

Uma aula de história

Quem observa “Um mate para a liberdade” pode ficar encantado com os diversos detalhes que ornamentam o mate colonial estilo cálice com recipiente de coco. Mas é somente ao ouvir a descrição de Raul para cada um dos elementos é que se tem a dimensão de que a peça se trata de uma verdadeira obra de arte. É o item preferido de sua coleção e não está à venda. Foi criado especialmente para participar de uma exposição na Argentina no ano passado.  Coincidência ou não, a peça foi iniciada no dia 13 de maio – data da assinatura da Lei Áurea, em 1888, que aboliu a escravatura.

A obra faz uma homenagem àqueles que sustentaram o império português e brasileiro: os escravos. Ela é resultado de uma extensa pesquisa histórico-cultural realizada na Argentina e na Charqueada de São João, em Pelotas. Embora a cuia feita com a casca do coco seja pouco conhecida, acredita-se que o primeiro mate lavrado em prata foi feito com o material, já que a primeira escola de prataria na época do Brasil Colônia ficava no Rio de Janeiro, onde o porongo era mais raro. Um dos exemplares feitos com coco pertenceu ao Conde D’Eu e está exposto no Museu Imperial, em Petrópolis. Museu e colecionadores na Argentina e Uruguai também têm modelos semelhantes em seu acervo.

O bocal representa o império português e brasileiro, com as coroas de Dom Pedro, Dom Pedro I e Dom Pedro II e três cruzes de malta da Ordem dos Cavaleiros de Cristo esmaltadas representam o poder de sua frota naval na conquista do novo continente. Também representando Portugal a riqueza da arte da filigrana (trabalho ornamental feito de fios muito finos e pequeninas bolas de metal, soldadas de forma a compor um desenho). O recipiente de coco simboliza o Brasil e o início da arte da prataria. A haste traz três escravos: o índio, sendo o primeiro a ser escravizado; o escravo africano e o crioulo, nascido neste novo continente e descendente destes africanos. Todos estes sustentam o império representado pelo recipiente de coco e o bocal. Os observadores mais atentos podem reparar que nas costas do crioulo há cicatrizes das chibatadas e em sua testa as letras NF – iniciais da expressão “negro fujão”.

No pé da haste os três ícones que simbolizam a luta pela liberdade e a abolição da escravatura: Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju e a Princesa Isabel.

A bomba retrata o escravo no tronco –  um dos mais cruéis e dolorosos castigos, onde ele era amarrado em uma praça e tinha as roupas arrancadas para receber chibatadas. 

Escola

De uma amizade com Darci Poletto – um dos idealizadores da Casa das Artes e com histórico envolvimento na área cultural local – o sonho de criar uma escola para difundir a sua arte está ganhando forma. A Escola de Artes Santo Elói, que funcionará no subsolo da Fundação Casa das Artes, surgiu por um ideal: o de manter viva a tradição. A cultura da prataria já foi forte no Estado, mas extinguiu-se por conta da industrialização. Hoje é possível contar nos dedos o número de pessoas que trabalham na área no Brasil. “Não posso morrer sem passar esse conhecimento adiante”, afirma Raul.

Os dois se conheceram por um amigo em comum e ficaram próximos quando Poletto encomendou uma cuia para presentear a neta de cinco anos, que não mora mais na cidade. Desta relação nasceu uma grande amizade e praticamente todos os dias Poletto vai ao atelier de Raul. Entre um mate e outro, o prateiro revelou o desejo de um dia fundar uma escola – um plano para quando estivesse próximo da aposentadoria. Poletto viu potencial no talento de Raul – o compara ao saudoso Anastácio Orlikowsi, falecido em janeiro, que se aventurou em diferentes técnicas e era um artista completo – e não mediu esforços para ver o sonho do amigo sair do papel. Por dispor de mais tempo livre, é ele quem está indo atrás dos aspectos burocráticos. “O Raul tem talento e conhecimento e tem que ser aproveitado. Para mim a motivação foi ver o que ele é capaz e o que quer fazer. É o idealismo de buscar uma arte que estava quase extinta”, comenta.

Raul ainda trabalha para a finalização das apostilas e a carga horária da capacitação básica deve ser de 40 horas. O nome da escola é uma homenagem ao santo padroeiro dos joalheiros e ourives. Raul já chegou a ministrar alguns cursos individuais em seu pequeno atelier. Entre os alunos, cuteleiros que sempre dependiam que algum outro profissional finalizasse alguns detalhes em metal na peça. A expectativa é que a escola inicie as atividades com turmas completas. A principal técnica a ser ensinada é a do cinzelado, que consiste em, através de batidas, dar volume a uma chapa de metal. A partir dela o aluno pode criar as mais diferentes peças e figuras.

 

Esta é a 26ª reportagem da Série “Vida de…”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 

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