Um conforto para a dor do luto
A maior dor do mundo é a dor de quem a sente, por isso, não é suscetível a comparações ou discussões. A maior dor do mundo é passível de reconhecimento e compreensão, por meio de um decurso que acontece internamente e de formas diferentes a cada um. O luto é uma experiência tão particular, de vivência tão intensa e profunda que, por vezes, não há palavras suficientes capazes de nomeá-lo. É um processo cujos sintomas e reações decorrem do rompimento dos laços de afeto antes formados, e que vem recheado de angústia, tristeza, raiva, questionamentos e confusões, entre tantas outras emoções.
A morte é algo do qual se está ciente racionalmente. Contudo, o ser humano não nasce preparado emocionalmente para perder aquilo que deseja preservar – vive-se, diariamente, na possibilidade do amanhã acompanhado de quem se gosta. Logo, não se está, de fato, instruído para aquilo que não conhece e, tampouco, aceita. A morte, em si, está sujeita ao reconhecimento, devido à certeza que carrega (todo mundo sabe que vai morrer um dia). Porém, a potência humana, por intermédio dos mais variados meios de controlar a finitude ou prorrogá-la, desafia reflexões mais aprofundadas acerca da vida e morte.
Tão penosa para quem fica, a dor provinda das perdas pode ser vista como a tradução do que também é o amor. Engana-se quem pensa que amar é viver em fantasias – não é à toa que os contos de fadas, repletos de brilho e magia, não passam de animações. O amor, sobretudo diante de rompimentos imprevistos (porque toda morte assim o é), constitui a mais pura e verdadeira essência formada entre quem foi e quem ficou.
O sofrimento de quem perde está ligado àquilo que se tinha em vida e que, a partir da morte de alguém, precisa passar por um processo de reorganização. O luto, na verdade, é um convite para novas formas de aprender, descontruir crenças que já não fazem mais sentido, desenvolver estratégias e recursos para enfrentar novas etapas da vida e, com elas, novas responsabilidades, além de transformar a relação de amor – aprender a amar em separado: encontrar e construir um lugarzinho especial, dentro de cada um, para quem tanto se quis bem a vida inteira. O luto é um processo que abrange um tempo individual, diferentemente de um tempo cronológico. Por tal razão, aquilo que, inicialmente era intraduzível diante da dor, vai sendo modificado em novas formas de viver – de um modo que não mais faça sofrer como antes, mas que permita continuar a vida, carregando quem se ama sempre junto de si – é quando se aprende que o amor nunca morre.
Isso significa que a escuridão da noite do luto, que impede o ser humano de enxergar caminhos, vai amanhecendo ao longo do tempo, de modo a oportunizar o clarão do dia, trazendo consigo a luz de todos aqueles a quem se ama e que, na verdade, permanecem em vida de uma forma diferente, mas nunca distante. Se há algo bonito no processo de luto, é essa possibilidade de fazer alguém que sofre renascer da dor ao longo do tempo. Afinal, o luto também é um chamamento para a renovação de quem fica.
Embora seja uma situação penosa, sobretudo nos momentos iniciais, o luto constitui uma solicitação para a mudança, para novas formas de viver e, acima de tudo, buscar viver com qualidade, apreciando cada relação formada, ao mesmo tempo em que as feridas vão sendo cicatrizadas, ocupando o lugar da lembrança e da saudade, que poderão sempre andar de mãos dadas com quem fica, dando sentido para a morte e continuidade à vida sem culpa, de forma serena e tranquila.
Franciele Sassi
Psicóloga – CRP 07/24082
Especialista em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto e Perdas
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