Vida de… Leandro Cavalli, o Tatuíra, que está há 12 anos e 7 dias longe das drogas

O cabelo comprido entrega uma paixão antiga, o heavy metal. Mas quem conhece Leandro Cavalli há mais tempo sabe que esse estilo é uma das poucas coisas que restaram de sua antiga vida. Há 12 anos e 7 dias, Tatuíra, como é chamado, abandonou de vez o mundo das drogas e reestabeleceu a conduta de sua própria vida. O caminho não foi fácil, pelo contrário: é uma luta diária mantida até hoje a duras penas. Mas ele garante que vale a pena. E muito.

Mesmo tanto tempo depois, ele ainda se intitula adicto (dependente químico) em recuperação. “Como a maioria, comecei pela maconha e pelo álcool – que, para mim, é o rei das drogas – aos 14 anos de idade. Sempre pensei que isso não iria me causar mal, mas eu estava enganado. É uma doença e é progressiva: cinco anos depois, eu passei a usar cocaína. Mas logo aquela sensação de poder não era mais suficiente e parti para o crack. Foi quando minha vida desabou, tudo passou a regredir. Não tinha emprego, nem um relacionamento e  pouquíssimos amigos. As pessoas com quem eu convivia não me aguentavam mais. Comecei a me isolar até chegar em um ponto em que nem mesmo eu me aturava. A vida se resumia a acordar, fumar maconha, logo no início da tarde beber e fumar e, à noite, partir para outras drogas mais pesadas” relembra . Foram 11 anos de dependência química pesada. “Experimentei muitos tipos, como ecstasy, LSD e cola. Tudo que vinha era ‘lucro’, eu achava que ‘estar louco’ era a coisa mais legal que existia e que meus ‘amigos’ estavam curtindo muito. Hoje sei quem são meus verdadeiros amigos: os que me apoiam e querem me ver bem”, detalha. 

Leandro e a mãe, Isolda (Foto: Evandro Soares)

O dia 2 de fevereiro de 2005 marcou de vez a vida dele. “Eu já havia batido o carro duas vezes em menos de um mês e não tinha mais controle sobre mim mesmo”, lamenta. “Comecei a ligar para a mãe de um amigo de madrugada pedindo ajuda e, no dia 2 de maio de 2005, essa ajuda veio. Foram seis meses internado em uma fazenda, reaprendendo a viver”, diz. Quando voltou para casa, uma das primeiras recomendações foi evitar pessoas que tinham o hábito de consumir bebidas alcoólicas ou drogas. “Uma das coisas mais difíceis é parar com o álcool, pois está presente em qualquer festa. Mas aprendi nesse tempo uma palavra mágica, o ‘não’. Hoje tenho certeza que, se um dia voltar a ser um dependente, meu destino será um caixão”, comenta Tatuíra. Outra orientação dos especialistas foi manter a ajuda através de grupos de apoio. “Frequento reuniões até hoje. Comecei frequentando o NA [Narcóticos Anônimos], onde fiquei por nove anos e meio. Por motivos pessoais me afastei. Levei menos de duas semanas para perceber que não poderia ficar sem esse apoio. Conversei com alguns amigos e resolvemos fundar um grupo próprio, o EA (Encontro de Adictos). Nós nos encontramos todas as quintas-feiras há mais de dois anos”, conta. As reuniões acontecem no salão do bairro Humaitá, das 20h às 22h. O primeiro encontro de cada mês é aberto a quem quiser participar.

Desconfiança
Tatuíra lembra que, logo após deixar a fazenda, muitos amigos da época em que ele fazia uso de drogas e álcool duvidaram de sua recuperação. “No começo foi difícil. Por eu ser roqueiro e ‘cabeludo’, existia certo preconceito. As pessoas me julgavam e diziam que eu não tinha mudado”, lamenta. Ter cabelo comprido era um desejo de adolescência, mas que não foi permitido pelos pais dele. Em 2002, quando começou a tocar baixo em uma banda local, decidiu deixar crescer. “Eles não acreditavam em mim, falavam que logo eu iria voltar a usar. Mas quando me internei e resolvi terminar o tratamento, coloquei na minha cabeça que eu não queria mais aquilo na minha vida. Com o passar dos anos, fui me fortalecendo ao ver o estado em que os dependentes estavam, ficava imaginando como eu era, sem contar os amigos que não estão mais entre nós”, relembra. “Hoje, quem conhece meu passado reconhece meu esforço e não oferece álcool nem insiste. Daqueles que tentaram me oferecer me afastei por completo. Sei que a vontade vem e vai continuar vindo, porém coloco minha vida aos cuidados de Deus porque sei que, depois do primeiro gole, a tendência é sempre piorar. Eu tenho que gostar do jeito que sou e, principalmente, ser eu mesmo, não querer ser outra pessoa, muito menos ser o que os outros querem que eu seja. Tendo amor próprio, fica um pouco mais fácil”, explica.

O recomeço
Aos 36 anos de idade, Tatuíra é um exemplo de orgulho próprio. “Tenho um lugar para morar, uma família linda que amo muito [ele é casado com Ana Raquel Weiller Carlini e pai de Alexandre, de quatro anos], tenho amigos verdadeiros, um emprego estável [há 11 anos ele trabalha na farmácia da secretaria municipal de Saúde] e, o principal, tenho minha vida de volta”, comemora. “Antes eu era escravo da droga e não tinha nenhuma perspectiva de vida. Gosto muito de falar sobre a dependência porque sei que, assim como eu precisei, existem muitas pessoas que podem ser ajudadas. Se você está nessa situação, dê uma chance a si mesmo e se permita ver o quão gratificante é estar em sobriedade. Usar drogas parece ser algo bom no início, enquanto é novidade e você consegue controlar o uso. Mas no momento em que você não consegue mais dizer não, sua vida começa a regredir e tudo vai por água abaixo”, ensina. “Hoje tenho consciência de que sofro de uma doença progressiva, incurável e fatal e de que, para me manter limpo, tenho que evitar a primeira dose ou o primeiro contato com a droga. Muita gente só se dá conta de que tem o problema quando chega ao fundo do poço. Se você acha que não consegue controlar sua necessidade de usar, procure ajuda. Você vai ver que a vida é bem melhor”, aconselha.

Leandro, a esposa, Ana Raquel, e o filho, Alexandre (Foto: Evandro Soares)

Exemplo
Pai de Alexandre, de quatro anos, Tatuíra quer se manter sendo um exemplo positivo. “Ainda não conversei com ele sobre isso, mas quando ele tiver idade para entender, pretendo contar um pouco do que passei para que ele saiba desde cedo como o álcool e as drogas podem destruir a vida de uma pessoa e fazer sofrer quem a ama”, enfatiza.

Esperança
“Certa vez aprendi com um companheiro que está sóbrio há mais de 40 anos que o remédio do adicto é tomado pelos ouvidos, pois é ouvindo que se aprende a viver em recuperação. Não basta apenas querer ficar limpo, é preciso ter boa vontade, mente aberta e perseverança e, muito importante, nunca deixar de frequentar grupos de autoajuda, é uma batalha diária”, ensina. Outra dica é encarar os percalços do dia a dia como dificuldades, não problemas. “Dificuldades são mais fáceis de se resolver. E a pessoa que vive em recuperação sabe do que eu estou falando. Nada melhor do que colocar a cabeça no travesseiro e saber que não usou”, garante.

A série
Esta é a 13ª reportagem da Série “Vida de…”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 

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